Húmus

Devo ao notável escritor Raul Brandão o favor de me ter levado ao encontro com a palavra húmus. O formidável prosador escreveu uma obra intitulada Húmus. A mesma obra num País exigente e interessado na aculturação dos seus filhos não a deixaria de fora nos programas escolares de todas as Escolas, todas, os escritores, jornalistas e os colaboradores dos órgãos de comunicação social que prezam a língua portuguesa, obrigatoriamente, da obra do reputado homem de letras, pelo menos, leem Húmus.
Não esqueço, estou sempre a relembrar as considerações de Manuel Antunes, Domingos Monteiro, Orlando Vitorino, Álvaro Salema, Pala e Carmo, David Mourão-Ferreira, todos empenhados na defesa do livro e alguns cirandaram em itinerâncias em prol da leitura pelo prazer de ler, aconselharem a tortos e a direito o referido título, o operativo criador Vasco Graça Moura nunca esquecia a importância de Raul Brandão no firmamento literário português. Ele descrevia-o fora do cânone da intrincada e encadeada linguagem da crítica universitária, a qual não nutria simpatia por Graça Moura devido às suas posições políticas e sobre o «acordo» ortográfico, sublinhava a sua condição de bom poeta, e já estava cheio de sorte. O agregador Vasco era demasiado frontal. Os bonzos literas não lhe apreciam a frontalidade, o cuidado no vestir, a qualidade dos fatos, o eclatamte das gravatas, e a ampla fruição das criações belas, desde a música à pintura e tutti-quanti levava os tais literas a raivosos ciúmes, concedendo plena validade à máxima nunca o invejoso medrou, nem quem ao pé dele morou. Ele granjeou bom número de invejosos e invejosas.
Trago Húmus a terreiro pelas piores razões, a destruição da floresta, de casas, acima de tudo de vidas humanas pelos incêndios estivais.
Os especialistas acentuam o facto de o perverso fogo ao queimar bosques e matas liquida o húmus existente nos terrenos onde lavrou, além de os impermeabilizar durante largo período de tempo. Os prejuízos ambientais, culturais, económicos e sociais além de serem enormes acarretam o desenraizamento, a desolação, a vontade de abandonar o amanho dos campos contribuindo para a desertificação das regiões.
A vaga de atentados à nossa herança cuja origem tem de interessar a todos quantos pensam o futuro hoje, temos de cada qual à sua maneira tocados pelo sentimento colectivo da defesa da nossa identidade cujos marcos referenciais são as pedras que falam, as árvores seculares a darem o tom ancestral na paisagem, uma paisagem polvilhada de cromatismos a conferirem relevante poética a essa mesma paisagem.
Estamos em período de ócio, preenche-lo lendo ou relendo Húmus é excelente exercício, para lá da retirada de sápidos gostos intelectuais leva-nos a pensar na regeneração da terra, na concordância dos termos cultura e agricultura, a conferirmos maior acutilância do dito pelo pensador Bacon, o qual disse que a cultura é o adubamento das mentes. Sim, o estrume do intelecto. A natureza sofreu mais um tremendo entorse resultante dos malefícios do fogo, no entanto, a domesticação do fogo é o maior invento da Humanidade, sem ele não estávamos cá. Gosto de referir livros, sempre, Para Sempre (Vergílio Ferreira), associando a este ponto focal à lapidar realidade: o homem come tudo, mas não come de tudo. O visionário Orwell sabia que também no respeitante aos livros, sendo todos iguais, há uns mais iguais que outros. Ora, Húmus é dos raros a ter poucos iguais a ele. Por tão invulgar qualidade já faz parte do acervo das obras eternas ou imortais. Alguém duvida?