NATAL

Seria rematada tolice aflorar, mesmo ao de leve, as representações de Natal encerradas na mala escolar da minha memória. Todos quantos fazem o favor de ler os escritos da minha lavra já repararam na secura de algumas colheitas memorialísticas consequência da cesura do tempo, embora procure compensar a prevalência do joio recorrendo a palavras bem-humoradas.
Entendi voltar ao tema da Natividade prometendo a mim mesmo não meter a mão na saquita inesgotável de Lagarelhos, de Bragança, até à saída nos finais de sessenta do século ido caído na tristeza calorenta da guerra colonial, à ciclópica labuta de recuperar o tempo perdido (desculpe Sr. Proust) académica e profissionalmente. O que sobra? Pouco, muito pouco, resta-me a vontade de não fugir de mim.
Eu não sei se no Nordeste e na cidade bragançana em particular existem grupos, e tertúlias de aprazimento lendo, ouvindo, discutindo sem discutir numa atmosfera de unidade na diversidade onde a soledade é bem distribuída. Se existem alegro-me.
Na circunstância aldeã (o termo aldeia no Ribatejo é abstruso) de onde vivo de gente afável e reinadia não é fácil construir um nous agregador, por esse motivo concebi um por categorias e géneros tendo tido o atrevimento de incomodar mulheres e homens de várias origens e múltiplas opiniões. Umas vezes opulento de alacridade, outras em quase soturno laconismo. A pesquisa Tem-se revelado altamente rentável.
No tocante ao nascer do Deus-Menino temos o favor da resposta vibrante de músicos, poetas e prosadores de alta estirpe confinados a oásis de onde só saem quando lembrados a propósito de uma qualquer efeméride pois nos dias correntes ninguém se lembra deles preferindo gorgolar imagens nos telemóveis seja no decorrer de uma cerimónia, seja um almoço, ou seja onde for.
Eles respondem sempre ao chamamento, a este, tendo como pano de fundo o Natal a entusiástica resposta obrigou-me a optar tendo o cuidado de lhe explicar a causa prometendo-lhe futura chamada. Assim, queira o leitor ler a Noite de Natal de Andrade Ferreira, o muito nomeado mas pouco lido Suave Milagre de Eça, O Presépio de D. João da Câmara, A Consoada de Abel Botelho, O Natal dos Pobres de Raul Brandão, A Missa do Galo de Aquilino Ribeiro, O Natal em Ossela de Ferreira de Castro, Os Reis Magos de Vitorino Nemésio, Conto do Natal de José Régio, O Natal do doutor Crosby de José Rodrigues Miguéis, O Regresso de Domingos Monteiro, e Natal de Miguel Torga. No intuito de facilitar a procura aos potenciais interessados encontram estes textos na Antologia dedica ao Natal organizada pelo notável poeta que foi Vasco Graça Moura.