O BONÉ

Não há forma de nos ausentarmos deste pesadelo gigantesco, comum e colossal, que nos entra casa dentro desde o último fim de semana. Quando ao outono cumpria, como em anos anteriores, prometer castanhas assadas, vinho novo, chuva e frio, este ano, este clima madrasto e outras forças diabólicas que uns clamam serem naturais, outros garantem de origem criminosa, trouxe-nos um cenário dantesco de fogo, destruição e morte. São muitos e dolorosos os testemunhos que a televisão nos mostra diária e continuamente. Todos são pesados, tristes, doídos e, infelizmente, tem a quantidade a estranha virtualidade de, por serem tantos, mesmo tão graves, mesmo tão pungentes, acabam por se desvalorizarem, se banalizarem, se medianizarem. Há, contudo, sempre alguns, de entre tantos, que mais nos impressionam, que mais nos tocam no fundo da alma e nos fazem sentir um pouco mais, esta dor enorme que nos assola e nos diminui.
O repórter de serviço fala-nos de Joana Martins, uma pequena aldeia do concelho de Vouzela, com um nome curioso e que, diz-nos o Público, foi invadida, há um ano, por uma praga de escaravelhos pretos que não deixavam dormir nem sossegar ninguém. Não pude deixar de lembrar uma das sete pragas bíblicas que se abateram sobre o Egito quando os gafanhotos precederam a destruição e morte que a ira divina abateu sobre os homens que lhe não eram gratos. Terão sido os escravelhos negros os fúnebres e tenebrosos mensageiros do dantesco cenário que este ano se abateu sobre os humildes habitantes da localidade serrana? O repórter não no-lo diz, certamente, porque não o sabe. Nem ele nem ninguém. Muito menos o seu entrevistado, José Rodrigues que o fita, a ele e a todos nós, com um olhar cinzento, desfocado e espraiado sobre o infinito vazio, sobre a infinitude da desgraça que lhe bateu à porta. Perdeu, tudo. Quase tudo, emenda com receio que a pequena fatia poupada lhe retire credibilidade no relato doloroso da desgraça. Perdeu as culturas agrícolas, as máquinas que tinha, os estábulos e, suspira, os animais que ali guardava. Ficou-lhe a casa. É na casa agora que se refugia, que guarda a dor, que recolhe todo o sofrimento.
Aquele olhar vago e etéreo, atraiu-me, aprisionou-me, chamou-me. Os seus olhos eram claros como a cinza esbranquiçada que lhe servia de moldura. Não fixavam nada nem ninguém. Invocavam seres e poderes que pudesem mitigar a destruição que ali caíra. Falava tristemente e cabisbaixo. Na cabeça trazia um boné laranja com letras brancas “Rui Ladeira – Vouzela 2017” seguidas do símbolo do PSD.
 
Rui Miguel Ladeira Pereira foi eleito Presidente da Câmara de Vouzela. É nele que o José Rodrigues deposita agora toda a sua esperança. “Espero que venha cá alguém ver. Do Governo ou da Câmara. Queria mostrar-lhes o meu prejuízo. Perdi tudo. Só me ficou a casa!”
 
Os senhores feudais da Idade Média mantinham a fidelidade dos seus servos garantindo-lhes proteção e segurança. O símbolo desse contrato era o pendão senhorial que asteavam no castelo e que todos reconheciam e lhes testemunhava a firmeza desse compromisso. A Idade Moderna extinguiu o feudalismo e transferiu para o Estado e para as entidades públicas essas responsabilidades. Os “servos” de hoje pagam o devido preito com o seu voto e com os impostos. O pendão deste cidadão viseense é o boné que usa diariamente. Usa-o e tem esse direito porque cumpriu a sua parte. Os poderes públicos é que, em contrapartida, não lhe garantiram o resguardo devido.
Estou certo que o Presidente Miguel Ladeira encontrará na sua ocupadíssima agenda algumas horas para ir a Joana Martins visitar o José Rodrigues, em sua casa, para com ele olhar e avaliar a imensidão dos bens que o fogo lhe roubou e que ninguém soube proteger como seria devido. Continue ou não, este último, a usar o boné da recente campanha eleitoral.