O Ódio e A Besta…

De criança, em ambiente cristão-católico, todos aprendemos a frase “dar a outra face”. Nas missas frequentadas por rotina, na peugada dos mais velhos, a ouvir sermões de bem-fazer, de posturas correctas, de ensinamentos bíblicos, de leituras do Testamento Apostólico, éramos levados, perante o magoar de outrem, de uma bofetada, dever de sorrir, dever de abraçar, tolerar.
Lá, no interior mais profundo do Nordeste Transmontano, mesmo por Detrás dos Montes, escondida entre ondulares imponentes, onde as rainhas e princesas eram as amendoeiras e oliveiras, dormitava aldeia à antiga. Tinha Igreja, Escola Primária, Regente, Lagar de Azeite, Regedor, Praça e Fontanário. O dia começava muito mais cedo pois que o astro-rei infligia sufoco quando a pino se colocava.
A apanha da amêndoa, doirada de ouro, era jorna ressequida, abrasadora. Nas poucas sombras que por ali se encontravam, a sede matava-se ali debaixo da árvore, afogava-se o corpo em água, nunca em vinho.
Porque os amores me arrastaram para estas bandas, bendita hora, cedo me apaixonei pelos afazeres desconhecidos. Convivi com outras gentes em contextos de aprendizagem constante, querida e assumida, de igual para igual. Fiz parte de ranchos, sem jorna, sofri na carne o flagelo daquele interior de aridez cativante. Embrenhei-me nas rotinas, vivi problemas concretos de pessoas que consideravam aqueles palmos de terra o centro do mundo.
O Zé e o Quim são crias do mesmo ano e mês, separam-nos duas horas. O Quim é filho-de-leite da mãe do Zé. A aldeia viu-os sempre juntos, nos berços, nos tombos pelos quelhos, na escola, nas fadigas da vida. O Zé, moço pobre, partiu para a guerra do Ultramar deixando na terra o amor de uma vida, a Miquinhas da D. Arminda e do Sr. Pinto. O Quim, herdeiro dos Senhores do Casarão, que da tropa se livrou com a ajuda dos dinheiros que tudo compram, engravidou a Miquinhas, com a força do poder que subjuga.
A aldeia tremeu no dia em que o Zé regressa ao ventre, às poeiras dos caminhos onde tanto brincou. No Casarão, hermeticamente fechado, as almas já lá não vivem, tal a vergonha. D. Arminda e o Sr. Pinto mirraram de tristeza mas, mesmo descarnados, transmitiram amor profundo ao neto Justino, fará três anos por alturas do Santo Antão da Barca. Miquinhas vive na vila, em penitência, sofrida.
Sabe-se que Zé passou primeiro pela vila, conversou e ajustou com Miquinhas e entrou com ela na aldeia, calando o povo. Foi ao Porto e amigou, de novo, com o Quim, sem desculpas nem perdões, com abraços e apertos de mão pois o futuro agarra-se, nunca se deve desperdiçar.
Combatem-se as relações desfeitas e o terrorismo, com amor e tolerância, nunca com mais ódio e armas.
 Pode não resultar mas todos, o mundo inteiro, a aldeia, o sítio, todos ficarão a saber onde moram O Ódio e A Besta…