Os Recados de Marcelo no 5 de Outubro

Por ocasião das comemorações do 106.º aniversário da Implantação da República, Marcelo Rebelo de Sousa, personalidade comummente reconhecida por estar (eticamente) acima dos partidos, fez um discurso centrado nos valores da República, não deixando, pois, de lançar algumas farpas, em jeito de recomendação, à classe política, a quem se lhe reconhece – não querendo generalizar – uma certa propensão para os descurar.
Numa exposição discursiva condensada em 7 minutos, o “presidente dos afectos” chama a atenção para “os factores que minam a confiança dos leitores”, porque “ … de cada vez que um responsável político se deslumbra com o poder, se acha o centro do mundo, se permite admitir dependências pessoais ou funcionais, se distancia dos governados, aparenta considerar-se eterno, alimenta clientelas, redes de influência e de promoção social, económica e política, de cada vez que isso acontece, aos olhos do cidadão comum é a democracia que sofre, é o 5 de Outubro que se empobrece ou esvazia”.
Enviados os recados, a preocupação/curiosidade dos comentadores e analistas políticos era saber quem eram os alvos do presidente. Quem é que, exercendo cargos públicos, investidos da honrosa tarefa de governar a Polis (nas autarquias, no poder central, na assembleia da república ou fazendo parte de um órgão de soberania), o povo não reconhece como exemplo e se afasta dos valores da República.
            Mais importante do que identificar quem não é exemplo de “frugalidade”, nem de “humildade”, nem de altruísmo, é termos a consciência de que, felizmente e para bem da Democracia, ainda há quem, na classe política (e mesmo não fazendo parte dela), gere o interesse colectivo, trilhando os caminhos da seriedade, da probidade e da lisura, numa demanda sob o signo das dificuldades e dos dramas dos governados.
Mais importante do que identificar os alvos da prelecção do mais alto magistrado da nação, é o imenso orgulho de, enquanto portugueses, nesse simbólico dia 5 de Outubro, um dos nossos ter sido escolhido para representar o mais importante cargo da diplomacia internacional: António Guterres, essa figura carismática, competente, superior, humana, bondosa e desempoeirada, garantiu a “cadeira” do prestigiante cargo de Secretário -  Geral das Nações Unidas.
Como homem de convergências, de diálogo, promotor de pontes multiculturais e políticas à escala global, “evangelizador” por natureza, com uma larga experiência no contacto directo com o drama dos refugiados, o seu propósito, que, entre outros, o de pacificar as tensões no mundo, no Médio Oriente, entre os Estados Unidos e a Rússia, a guerra na Síria, o perigo que representa a Coreia do Norte e o Estado Islâmico, etc., não ficará por cumprir, se essa for, evidentemente, a vontade politica dos responsáveis (por acção ou omissão) da tragédia humana que grassa no mundo.
Ainda que, ao que consta, Guterres não tenha sido um bom primeiro ministro – a que não é alheio, estou convencido, o facto de, para ele, as pessoas serem mais importantes que os números -, não nos podemos esquecer que muitas das sementas que fizeram com que o nosso país seja hoje uma realidade social mais justa, solidária e tolerante, foram por ele lançadas. E a prova de que o novo Secretário- Geral das Nações Unidas é uma figura consensual, é a convergência (nesta matéria) entre a esquerda e a direita – um facto, diria, capaz de justificar o repicar dos sinos da igreja! – na ideia de que o ex Alto Comissário para os Refugiados é a pessoa mais bem preparada  para dirigir os destinos da ONU.
Uma unanimidade que nada tem a ver com questões patrióticas, mas apenas com as qualidades do eleito. Aliás, o “critério” pátrio seria, entre nós, um pouco incongruente e injusto, porquanto outros lusos, tendo ocupado altos cargos em prestigiadas instituições europeis, dificilmente encontrariam quem lhe comprasse um carro em segunda mão.