TAVARES

 
“Desde criança, há proximo de 30 anos, que me tenho esforçado por con­vencer em artigos de revistas e jornais a Câmara Municipal do concelho de Moncorvo, a fundar um museu regional, onde recolhêssemos as nossas mui­tas e venerandas preciosidades arqueológicas. Baldados esforços! A maldita política comprometera por completo as minhas mais justas aspirações!” Isto escreveu José Augusto Tavares mais conhecido por Abade Tavares natural de Moncorvo onde para além de ter sido pároco em Carviçais desenvolveu grande e preciosa atividade arqueológica. Este seu desabafo publicado no Arqueológo Português em 1922 explicita a angústia que o acompanhou durante largos anos até ao final da sua vida. Da dedicação apaixonada à recolha, documentação e catalogação de vasto espólio regional quis dar bom contributo para o Museu Nacional de Arqueologia do seu amigo José Leite de Vasconcelos, o que fez, e proporcionar a criação na vila de Torre de Moncorvo de um Museu de Arqueologia que haveria de “attrahir a esta celebre, florescente e pitoresca villa constantemente centenas de forasteiros.”
Desiludido e amargurado, em final de vida não quis ceder à pressão do outro grande amigo, Abade de Baçal e entregar o espólio recolhido, ao Museu Regional de Bragança hoje Museu Abade de Baçal seu promotor e mentor e entregou-o à guarda do Seminário de S. José tutelado pelo episcopado distrital. Tal gesto sendo conhecido e autêntico não deixa de ser igualmente um recurso de que o Abade  se socorreu para preservar o rico património por si angariado.
 
Sabendo da abertura das entidades interessadas para valorizar e dessiminar o valioso conjunto arqueológico, muito focado na região do sul do distrito é importante centrar o foco no que realmente interessa: a vontade do antigo pároco de Carviçais. E dessa  não pode haver dúvida pois o próprio a registou estando presente em vários documentos. A coleção tinha como destino, sem qualquer margem para dúvidas, ser exposta num Museu Concelhio em Torre de Moncorvo. Tudo deve ser feito para que tal desígnio seja concretizado logo que possível.
Também ninguém duvida que foi indicado o Seminário de S. José de Bragança como fiel depositário do legado do prelado. Sabe-se que se por um lado o tratamento recebido esteve longe de ter sido o mais adequado, igualmente faltou o empenho político para encontrar na sede de concelho espaço digno e adequado para o receber e valorizar. Isto não impede o reconhecimento devido às autoridades eclesiásticas que recentemente iniciaram um trabalho de recuperação e inventariação com o apoio de técnicos do Museu Abade Baçal e, igualmente, a manifestação das atoridades autárquicas em acolher na Terra do Ferro o referido legado.
Espera-se que, desta vez, a vontade do Abade não seja, mais uma vez, embargada pela “maldita política”.
É um facto que há, quer em Moncorvo, quer em Bragança, muitas pessoas interessadas e disponíveis para contribuirem para a completa e cabal satisfação do propósito do prelado. É bom que não se ceda à tentação de protagonismos individuais e de satisfação de objetivos de fação e, pelo contrário, em vez de dispensar e afastar, haja vontade e ação para acolher e congregar todos os contributos, especialmente dos que apenas estão motivados pelo serviço público em memória do reputado arqueólogo, bem como para o benefício da terra onde nasceu e viveu.