Basílica de Outeiro: e agora?

 
É frequente, quando comemos o pão que chega à nossa mesa esquecermos as mãos que desbravaram a terra, lançaram a semente, colheram o trigo maduro, bem como as que o amassaram, o levaram ao forno e o retiraram no momento certo. Só conhecemos as mãos daquele que no-lo vende, ou as daquele que recebe o nosso dinheiro e, por vezes nos dá o troco, quando o vamos buscar às prateleiras de um qualquer hipermercado. Por isso, é bom, de vez em quando, recordar e lembrar todos os que contribuem para que tenhamos pão na mesa e não só aqueles de quem o recebemos.
A pequena semente que D. António Rafael semeou, há mais de trinta anos, finalmente germinou e despontou com a atribuição do título de Basílica à igreja do Santo Cristo de Outeiro. Na celebração do Ano Santo da Redenção, em 1983, durante a peregrinação diocesana àquele santuário, o então bispo de Bragança-Miranda referiu a monumentalidade do templo que “merecia o título de Basílica”.
O Cón. Manuel João Gomes, pároco de Outeiro e moderador da Unidade Pastoral do Santo Cristo, não deixou cair no esquecimento essa feliz expressão de D. António Rafael, e recuperou essa aspiração por ocasião da celebração dos trezentos anos da inauguração da, agora, Basílica Menor. Para além de não deixar apagar “a torcida que ainda fumegava” soube soprá-la no momento certo, para que a ideia pudesse acender-se no tempo oportuno e tornar-se uma realidade.
Agora, que despontou a primeira folha é preciso continuar a cuidar da planta para que ela dê frutos. Certamente será essa uma das preocupações de D. José Cordeiro, que soube acolher a ideia e concretizá-la; bem como dos seus mais diretos colaboradores, a quem foi dado um papel de destaque na celebração litúrgica da “Concessão do título de Basílica Menor à igreja-santuário do Santo Cristo”, muito bem e merecidamente. Por eles passará a promoção pastoral, espiritual e cultural da única basílica, não só do arciprestado, como também, de toda a diocese de Bragança-Miranda.
Também lhes competirá zelar para que todos os eventos, sobretudo os litúrgicos, que aí tenham lugar, sejam expurgados de tudo o que não está de acordo com a dignidade basilical e sejam referência para toda a diocese. Durante a referida celebração verificaram-se algumas falhas, que, eventualmente, macularam a solenidade da cerimónia e que deverão ser evitadas em futuras ocasiões. Por exemplo, deve ser ponderada a leitura de textos em latim, e não me refiro à capacidade ou qualidade de quem os proclama, mas se será a melhor forma de fazer passar a mensagem para quem os escuta. Não teria sido melhor ler uma tradução em português do Decreto Apostólico da concessão do título basilical, para o povo o compreender e poder jubilosamente aplaudir a feliz notícia?... Além disso, como alguém referiu, muito oportunamente, no final da celebração, o Decreto não foi “lido à assembleia”, como se registou em ata, mas “foi lido perante a assembleia”, como deveria ter ficado escrito.
Oxalá eles consigam, com a colaboração de outros organismos civis, militares e académicos, fazer de Outeiro uma referência no panorama diocesano e até nacional, não só ao nível litúrgico, mas também e sobretudo, ao nível pastoral e cultural, para que a atribuição do título não caia em “saco roto”.