Bom dia e bom trabalho

O CECD de Mira Sintra celebrou 40 anos de existência no salão nobre do Palácio Valenças, em Sintra numa cerimónia presidida por Basílio Horta autarca da vila Património Mundial da Unesco. O Centro de Educação para o Cidadão com Deficiência, baseado e orientado para o concelho sintrense, atende mais de 2.000 pessoas e já se estendeu para lá do seu território de origem. Neste seu aniversário resolveu distinguir os seus parceiros. A Fundação Calouste Gulbenkian foi homenageada como Cliente Socialmente Responsável. É verdade, caro leitor, não há engano. Não foi como benemérita, como financiadora ou como colaboradora; foi como cliente que foi distinguida. Entre os vários departamentos e unidades que compõem a Cooperativa há uma empresa, Curva Quatro que presta serviços em regime de mercado concorrencial.
Os jardins da Gulbenkian na Avenida de Berna, à Praça de Espanha são famosos e reconhecidos. Sem a grandiosidade destes, têm contudo referência de relevo os jardins do Palácio do Marquês onde o Instituto Gulbenkian de Ciência se integra. Quando, por razões de insuficiente qualidade na prestação de serviços da manutenção dos jardins do IGC fizemos uma consulta ao mercado, a proposta da Curva Quatro destacou-se pela qualidade do documento e pela ambição dos objetivos enunciados. Ao sabermos que os trabalhos iriam ser executados por pessoas com deficiência mental entendemos que valia a pena apostarmos nesta solução mesmo que o “preço a pagar” fosse uma certa dose de condescendência quer para a qualidade quer para a prontidão dos trabalhos pretendidos. ERRO NOSSO! O trabalho que sendo executado por pessoas com menores capacidades é planeado e coordenado por técnicos altamente competentes o que lhes permite apresentar um resultado final brilhante.
O Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian tentou que um dos seus membros estivesse presente na efeméride referida. Na impossibilidade absoluta de compatibilizar esse intento com compromissos já assumidos foi-me entregue uma singela mas sentida mensagem escrita pelo punho de Guilherme de Oliveira Martins. Adicionalmente, pediram-me um testemunho pessoal sobre a colaboração com o CECD. Fi-lo com agrado mas também, confesso, com alguma emoção. A missiva do antigo Presidente do Tribunal de Contas terminava com um Bem-Hajam. Que é adequado a uma cerimónia como aquela mas que não é, neste caso, mera cortesia de circunstância. A Fundação Gulbenkian está grata ao CECD pela forma como tem tratado os jardins do IGC, pelas razões que atrás referi. Devido, entre outros, ao trabalho do Filipe.
O Filipe tem uma deficiência mental genética. Tem quarenta anos e trabalha há vinte, disse-me ele um dia destes orgulhoso do seu percurso profissional. Executa várias tarefas sendo a limpeza dos jardins, das caleiras e das sarjetas uma das mais recorrentes. Fá-lo exemplarmente e o resultado é visível pois desde que o Filipe colabora connosco houve uma redução brutal de infiltrações de água causadas pelo entupimento dos esgotos das águas pluviais. A seguir ao almoço costuma andar no parque onde estaciono. Cumprimento-o. Responde-me sempre da mesma forma olhando-me fixamente: “Bom dia e bom trabalho!”.
Várias vezes dei comigo a refletir nestas palavras. Faz todo o sentido que o Filipe me manifeste o desejo que o meu trabalho corra bem. Uns dias corre, outros nem por isso. Eu é que não tenho forma de lhe retribuir. O trabalho do Filipe, corre sempre bem. Ele não facilita e executa-o sempre na perfeição. Por esse lado podemos todos estar tranquilos e descansados. Bem hajas Filipe.