Cantarinhas

Do emaranhado de obras dedicadas à cerâmica portuguesa destaco dois pequenos opúsculos da autoria do polígrafo e escritor de sucessos literários que mais venda tiveram nos finais do Séc. XIX e alvores do Séc. XX, Albino Forjaz de Sampaio, e outro da autoria de Carolina Michaelis de Vasconcelos. Essas duas singelas quão importantes espevitaram-me a curiosidade de procurar entender as múltiplas operacionalidades dos barros, porquanto aos signos simbólicos continuarei a estudá-los sem esperança de os entender plenamente.
O progresso defenestrou grande número de artefactos de barro, lembro as moringas, as infusas, as bilhas, as panelas, os tachos, sem esquecer cântaros e cântaras. E, os púcaros, famosos, os de Estremoz, escritores de vário matizes os assinalaram nas suas obras, as donzelas e mulheres mastigavam sofregamente parte deles.
Tais mastigações significavam ser o barro muito bom, pelo menos de igual qualidade ao existente na Suméria, baseio esta afirmação no facto de os sumérios não tendo papel terem optado pela argila para escreverem e aperfeiçoarem as primeiras letras. E, chego às cantarinhas.
Os historiadores especialistas de arte antiga dizem-nos que noutros tempos, “as palavras arte e técnica quase se confundiam no seu significado. Na língua grega, o technikos era essencialmente o artista, não havendo então destrinça entre a arte desinteressada e a arte útil ou utilitária.”
No decorrer dos séculos os artistas de objectos úteis. Para seu benefício e dos outros semelhantes, passaram a valorizá-los pintando-os ou esculpindo-os, tornando-os agradáveis à vista. É esta a origem das artes decorativas. Reside nesta vaidade a matricialidade das cantarinhas pintadas, das bilhas incrustadas de pedrinhas formando desenhos conforme a inspiração dos artistas. Antes da industrialização do artesanato grandes artesão de nenhuma peça igual a outra.
Sobre a criação de feiras não escrevo, relativamente à Feira das Cantarinhas alinhavo e alinho palavras na perspectiva de Festa, festa de afectos (a palavra está na moda), de ruidosa jovialidade, de fartas doses de facúndia na tentativa de convencer raparigas indecisas, de conquistar corações oferecendo cantarinhas conforme as disponibilidades de cada um.
No meu tempo de pinga-amor não me eximi a comprá-las, antes pelo contrário, palavras ridículas (Fernando Pessoa ridicularizou as cartas de amor a Ofélia) acompanhavam a oferta, a resposta nem sempre correspondeu ao desejado, apesar dos desaires, guardo alácres garridices da Festa das cantarinhas.
Desde as velhas gaiteiras até às crianças, ninguém ficava indiferente a tão repenicada festividade, imperava um ambiente alegre, os sons convergiam em melodia, gritavam-se palavras folionas, apesar do dia já ser grande acabava num ápice. Para tristeza nossa.
Errâncias e afazerem têm impedido o voltar a feirar no dia 3 de Maio. Há largos anos. Vou tentar suprir a ausência no próximo ano.
Armando Fernandes
PS. Relativamente às cerâmicas no círculo das indústrias criativas quase tudo está por fazer. Sobram as feiras de velharias onde tudo se mistura.