A crise e as suas causas – 3

Para lá das causas que já analisámos nas duas últimas edições, outras há como possíveis. Uns falam na globalização, e outros, no próprio sistema capitalista em si.

Quanto à globalização, ninguém de bom senso pode negar a influência que tem e pode vir a ter no despoletar da crise e no seu agravamento. Todos nós sabemos que as condições de produção, ao nível da mão-de-obra, nada têm de comparável entre o que se passa nos países desenvolvidos do Ocidente e o que se passa nos BRIC’s ou nos países emergentes em geral – e não só na China. Todos sabemos que um trabalhador especializado ganha, na China, na Índia, na Indonésia, no Paquistão e noutros países similares, menos de um décimo do que ganha um trabalhador no Ocidente e que, por isso, a concorrência, nestes casos, é impossível. Enquanto o Ocidente não enfrentar este problema e permitir que a China se transforme na fábrica do mundo, haverá necessariamente excesso de mão-de-obra no Ocidente. Quanto a isso ninguém tem dúvidas. O problema estará em saber como ultrapassar esta situação. Voltamos às taxas alfandegárias do passado? Obrigamos esses países a darem aos seus trabalhadores condições laborais e sociais parecidas com as que os trabalhadores auferem no Ocidente? Os consumidores do Ocidente devem boicotar os produtos dos países em que os trabalhadores são tratados como escravos? Haverá outras soluções?

Seja qual for a solução, alguma tem de se encontrar porque, caso contrário, o problema não será do Ocidente, mas dos próprios países emergentes, porque estes cairão na armadilha de terem produtos e não terem consumidores que lhos comprem. 

Quanto à perversidade do sistema capitalista em si, que sobretudo os teóricos marxistas gostam de apresentar como causa real da crise no Ocidente, gostava de lhes perguntar: já alguém ouviu falar em crise na Suécia, na Noruega, na Dinamarca, na Alemanha, etc., etc. Se a crise resultasse do próprio sistema capitalista, então a crise seria comum a todos os países capitalistas e não existiria nos países não capitalistas. Ora, o que nós vemos é que a crise de alguns países ditos capitalistas – como são os casos de Portugal, Grécia, Espanha e Itália – em nada se compara com a crise dos países não-capitalistas como Cuba, a Coreia do Norte e de todos os países que viveram ou vivem sob um regime marxista. Por isso, a causa da crise não pode estar no sistema capitalista em si, mas nalgumas perversões desse sistema.

Efectivamente, uma coisa é o sistema em si, e outra bem diferente são as patologias do sistema. É como o vinho e tantas outras coisas da vida. O vinho em si não é a causa de nenhuma doença, mas o excesso de vinho leva necessariamente a algumas doenças que, em muitos casos, se tornam fatais. O sistema capitalista desregulado, desenfreado, em que cada um faz o que quer para atingir a sua ganância de lucro e para satisfazer os seus interesses imediatos, nem que seja à custa dos outros, mais cedo ou mais tarde conduzirá a uma situação em que todo o sistema cairá de podre e se virará contra os próprios beneficiários mais directos do sistema.

É que no fundo, temos de admitir que o grande problema da sociedade é o egocentrismo do ser humano, desde o egocentrismo epistemológico, cognitivo, até ao egocentrismo ético. Perante esse egocentrismo, todos os sistemas são falíveis se não forem criados mecanismos de regulação e de prevenção que impeçam esse egocentrismo de se manifestar para lá de determinados níveis. 

É certo que o capitalismo se fundamenta precisamente no egocentrismo inerente ao lucro. Só que, ao contrário do que dizia Marx, o egocentrismo não é um exclusivo da classe dominante. E a prova é que o egocentrismo nunca desapareceu nos países ditos comunistas, mesmo ao fim de quase um século sem propriedade privada. Antes pelo contrário. O egocentrismo dos líderes dos países ditos comunistas não tinha e não tem classificação possível.   

Infelizmente, o egocentrismo é uma característica sempre latente em todo o ser humano. Temos é que saber aproveitar esse egocentrismo em sentido positivo e não em termos negativos. Para isso, o papel regulador dum Estado em que os cidadãos tenham o controlo do poder político e indirectamente do poder económico, é indispensável. E isso não se consegue através de ditaduras militares, do proletariado ou de qualquer Messias, como Salazar se julgava, mas através do reforço do poder dos cidadãos, ou seja, através do aprofundamento da própria democracia.