A crise moral

Muito se diz que vivemos uma grave crise moral. A cada passo nos mostram as provas irrefutáveis, citando colapsos financeiros, abusos mediáticos, corrupção política, injustiça social, etc. Não faltam os que vivem deprimidos por a Providência os colocar numa era desgraçada, sem fé nem lei.
A maior parte dos chavões mediáticos não resiste a uma observação séria, e este não é excepção. O que significa realmente uma crise moral? Por que razão esta época sofre mais disso que as anteriores? A resposta é mais ambígua e frágil que as certezas dão a entender.
Comecemos por notar que esta sociedade não vive o horror da escravatura, o que moralmente nos coloca logo muito acima da maioria dos séculos anteriores. Igualmente a tortura, pena de morte, abuso dos nobres e outras práticas, antes comuns, são hoje ilegalizadas. Considerando os direitos humanos, que a cultura contemporânea apregoa com vigor e eficácia inauditos, vemos que o mundo está muito melhor que antes.
Somos o primeiro tempo com cooperação internacional, ONGs, missões de paz, negociadores e observadores externos, socorro a emergências. O número de países democráticos e livres é o maior de sempre, como o dos sistemas de justiça saúde, educação e acção social modernos e eficazes. Existem graves e vastas falhas nesses campos, como sempre existiram. Mas uma consideração objectiva da situação coloca-nos muito acima dos antepassados. Trememos com o que se passa na Síria, Sudão, Paquistão e outras zonas de conflito, com os dramas da droga, tráfico de pessoas, discriminação racial, sexual, política, etc. Só que esses casos empalidecem face às barbáries e injustiças de séculos antigos. Em todas estas dimensões, esta era é privilegiada!
Assim, abandonando chavões mediáticos, a única conclusão razoável é que o nosso tempo não é melhor nem pior que os demais; apenas diferente. Tem certas coisas muito superiores a outras épocas e algumas em que está indiscutivelmente mal. Olhar as coisas assim é mais justo e eficaz. Em vez de passar atestados genéricos de imoralidade ou diagnosticar crises abstractas, a abordagem razoável é respeitar, e até amar a nossa sociedade, identificando serenamente as suas fraquezas e forças, como tudo o que é humano. Assim é possível orientar os nossos esforços para os temas polémicos do momento, sem desânimo depressivo, arrogância moralista ou condenação sumária.
Esta sociedade é excelente mas tem graves problemas morais, por exemplo no campo da família e vida humana, nas virtudes da temperança, paciência, modéstia, piedade, castidade, humildade, etc. Nesses aspectos todos conhecemos os males e há muito a fazer. Cada geração tem o seu combate moral. Os nossos avós lutaram pela liberdade religiosa, autonomia política, igualdade social, iniciativa económica. Cabe-nos a nós também defender valores decisivos. Essa é a missão que a Providência nos atribui para desempenharmos com diligência e tranquilidade. A única crise moral que existe está na nossa vivência diária neste mundo de Deus.