A denúncia anónima

A par do boato, a denúncia anónima equivale a acto pérfido de baixeza: um e outra correspondem ao arremessar da pedra escondendo a mão atrás do biombo da cobardia. Também o princípio criado da aceitação da segunda me parece gesto descabido e inaceitável, impróprio por insensato e pouco decente, cobertura daquela mesma cobardia. O denunciante identificado age de boa-fé: dá a cara, assumindo a responsabilidade da denúncia; o anónimo age sem rosto. A este, porque sem rosto, não cabe fazer prova da matéria denunciada, e, então, invertido o ónus, imputa-se ao sujeito denunciado a incumbência da demonstração da respectiva inocência.  Com a impiedosa agravante de, impessoalizada a denúncia, liminarmente inocentado o denunciado, ou inocentado via diligências processuais próprias, lhe ficarem o vazio e o pesadelo de não ter onde, nem como, nem perante quem se poder ressarcir minimamente dos prejuízos devastadores sofridos. A calúnia e a difamação, actos sociais ignóbeis, permanecerão órfãos, sem que por eles, ou pela sua autoria maléfica,  alguém seja chamado a prestar as devidas contas. Excluo a denúncia da corrupção ou do enriquecimento ilícito, o tráfico de influências ou o favorecimento, envolvendo, sem excepção, figuras gradas de mundos diversos (próximos, porém), procedimentos de prova difícil, se bem que do conhecimento de todos, todavia que figuras gradas não pretendem investigar e graúdos evitam condenar. A denúncia anónima tem, por norma e como móbil, a vil vingança ou o aniquilamento da imagem política, pessoal ou outra do denunciado. E este jamais saboreará o benefício da reabilitação, ferrete cravado na sua vida presente e futura. Para muitos, ficará sempre a dúvida penalizadora; para outros, a certeza do “crime” perpetrado. Todos (re)conhecemos o traço agiota da mediatização, em busca de rentabilização fácil e rápida pela venda exploratória da palavra e da imagem, tempo perdido com jogos mesquinhos de objectivos abjectos. Propalada a denúncia, colhida não se sabe bem onde nem como, jamais o denunciado haverá a oportunidade de limpar a imagem ofendida e conspurcada. Se de denúncia anónima se trata e sem maturidade própria para se desligar do domínio do segredo que deveria merecer, não se entende por que caída e estilhaçada nas ruas tortuosas do conhecimento público. Do meu humilde ponto de vista, recebida sem dono, seria calada. E somente se e quando confirmado claramente o respectivo teor, ela teria direito a honras de jornais, telejornais e outras sedes, disso sendo caso. Não se engordariam, por via dela, os gulosos da especulação desenfreada e sem limites, para gáudio de uns tantos e tantas vezes não mais do que oportunidade somente para deixar cair nas costas de condenados inocentes pingos de lacre a ferver na ponta de fósforos de cobardia impune. Ainda que com direito a desmentidos, informais ou formais, nunca terão acesso a eles os mesmíssimos que acederam à denúncia, entretanto ao sabor de todos os ventos.
Escrevo segundo a antiga ortografia.