Do socialismo de Deus ao socialismo dos homens: entre a liberdade e a coerção no amor à humanidade

Caro Leitor, proponho-lhe um exercício intelectual baseado em dois documentos: 1) a Mensagem Papal no Dia Mundial da Paz; e, 2) o Programa de Governo da Esquerda Portuguesa, sob a coordenação do Partido Socialista. Os dois documentos têm duas características comuns: a) são feitos por homens; b) apelam ambos a uma forma de socialismo, ainda que diferente.
Porém, os dois documentos divergem no método para alcançar o socialismo: o Papa propõe a adesão voluntária ao ideal da solidariedade através da compaixão, da misericórdia e da caridade; a Esquerda propõe a dominação e os seus instrumentos (legislação, sistemas de justiça, de finanças, policial e prisões) como forma coerciva de construir a igualdade entre os homens, obrigando os ricos e remediados a ajudar os pobres e excluídos através dos impostos pagos ao Estado.
Na perspectiva cristã católica, o documento papal é feito por um homem investido e iluminado por Deus como Papa, e, por isso, julgado infalível, absolutamente verdadeiro e divino no que escreve e no que diz. Será inspirado na bondade, no amor ao outro e na dedicação sem limites à humanidade, sem excluir ninguém (seja o antigo leproso ou o agora portador de sida) que o Papa fala e escreve.
Na perspectiva da Esquerda Portuguesa e, em rigor, de toda a acção governante coerciva, o amor é exercido pelo poder de dominação, julgado legítimo na medida em que se baseia no voto da maioria dos cidadãos eleitores que votaram nas eleições legislativas, mesmo que essa maioria corresponda só a 2,749 milhões de 9,682552 milhões de eleitores, isto é, a apenas 28,4% destes. Tal perspectiva de amor parte do princípio de que os ricos e os remediados são egoístas e têm de ser oprimidos para cederem os seus bens a quem deles necessita. Raramente discute se quem os recebe os merece, se se esforça para os pôr a render, se também ele assume os deveres de cidadania para com os outros, construindo, no final, uma sociedade de pobres porque os ricos e os remediados desistem de resistir à coerção e ou deixam de trabalhar ou abandonam os respectivos países.
Pelo que fica dito, conclui-se que a acção socialista baseada no poder temporal (dos governos) conduz a uma sociedade submissa e exausta e a uma governação cada vez mais autoritária. Negligencia a parábola dos talentos, do Evangelho, da liberdade individual exercida com responsabilidade e cidadania
Ao contrário, uma acção socialista baseada na mensagem cristã católica não impõe a prática da misericórdia e da doação dos bens a nenhum membro da sociedade mas convida-os a todos a serem solidários uns com os outros, a entreajudarem-se, não excluindo ninguém, desde o pobre ao refugiado, mas exigindo que cada um faça render os seus talentos e exerça as suas responsabilidades sociais. Esta mensagem propõe uma sociedade solidária mas livre, sendo a autoridade derivada da própria ideia de bem comum.
No plano empírico, esta acção socialista católica revelou-se, pelo menos até hoje, insuficiente para garantir a inclusão social de todos e de cada um porque pelo menos 50% das pessoas resistem a uma tal concepção. Mas que ela tornaria o socialismo dos homens muito mais livre, consciente e justo parece-me evidente.
Dia 9 de Março, às 21h00, lá estaremos no Auditório Paulo de Quintela, para analisarmos a Mensagem Papal para a Paz.