E o Menino?

Aqui há uns anos escrevi eriçado artigo contra o Pai Natal mascarado de flibusteiro do mar das Caraíbas. Explico melhor: mesmo nas aldeias surgiu imagem enfunada da celebrada figura vinda dos países nórdicos, a subir escada de corda dos piratas a fim de entrar pela janela das casas onde foi colocada. O inchado senhor carregava saco, presumo, repleto de presentes. Embora o Pai Natal tenha triunfado à escala planetária, transformando-se em símbolo de opulência, ele mesmo é uma figura rotunda, evidenciando prosperidade representada no seguro, espaçoso e resplandecente trenó puxado por potentes renas, nunca me mereceu grande simpatia, muito menos ternura. Desde há largos anos que passo as festas natalícias ou parte delas na Nova Inglaterra onde a torto e a direito topamos o Pai Natal, para não falar da imensa maioria das casas nas quais é quase omnipresente. Por desatenção esbarro nele, logo o seu barrete à campino fica às três pancadas, o casaco entortado, provocando comentários e censuras às testemunhas do meu desacerto a fazer lembrar os laparotos aos pulos em dias de nevada nos soutos e faceiras de Lagarelhos. É aqui que pretendo chegar. A Lagarelhos, onde mora o Menino, humilde, sem luxos, mal aconchegado dada a ausência de meios, aquecido através do bafo da vaca e do burrinho, mas de olhar doce, sorriso meigo a dizer a todos quantos O contemplam: tenham esperança, aqui estou protegido pela Senhora Mãe de Deus e São José, à espera dos vossos beijos. Os ares natais; os castanheiros tristes, no solo ouriços esventrados, as cortinhas caucionadoras de couves amaciadas pelas geadas, as outras árvores despidas mas ornamentadas pelos luaceiros de gelo, os caminhos lamacentos repisados pelos socos e patas dos animais, o sino a clamar contra os madraços, na Igreja, o Menino de vestido curto, a desprotegê-lo, aguarda a chegada de todos. Era assim no Natal da minha meninice. Agora, o progresso trouxe estrada alcatroada, além de outros benefícios, no entanto, relativamente ao Menino penso e desejo nada ter mudado. O vento da vida faz-me passar o Natal longe do Menino, a aldeia perdeu gente, viço, garridice, ganhou telenovelas, pão à porta, Internet, automóveis, frangos, presuntos e chouriços envoltos em plástico, bolos anódinos, as pessoas vestem-se e calçam-se como nas cidades de longe. Ainda bem. Nada contra o progresso. Felizmente ainda possui o gigante castanheiro e, e o Menino. Espero eu que não tenha sucumbido à moda do Homem do trenó.