Espaço Morto…

Desde sempre, antes mesmo da instrução primária, gostava de esconderijos, sítios meus. O farejo pelo espaço ditado pela ânsia de amplitude, pela liberdade de movimentos, colou-me na mente neurónios de análise dos lugares de ninguém.
Recordo-me, se me recordo, que por debaixo da enorme varanda coberta, abrilhantada por inúmeras e agigantadas janelas de guilhotina, de vistas largas, na longíssima e feliz infância, na casa minha de meus pais, criei um lugar mágico. Ali, entre os cavacos do fogão a lenha, construí um mundo só meu, habitado apenas pelos sonhos que me davam força. Muitas das vezes, abria o espaço aos compinchas, criando-lhes invejas saudáveis que nos dão poder e reconhecimento de chefia. Sentia, naquele tempo, rodeado de lenha por todo o lado, que se tratava de um centro de comando, onde se organizavam brincadeiras mágicas e libertadoras. Ainda hoje, percorrendo os caminhos sossegados que posso escolher, descubro facilmente novos cantos, difícil é encontrar os colonos, os fazedores que lhes haverão de dar vida.
Hoje, numa manhã estival de Junho, procurei lugar sagrado, plantado na paisagem protegida da Arriba Fóssil da Caparica, onde vagueia a lúcida e combatente memória de Pablo Neruda. Aqui, no miradouro do Convento dos Capuchos, entre os céus e as águas, entre o azul e o longe, matuto no impasse português.
Rodei a mente no sentido do caranguejo, recuei ao Grândola Vila Morena, à noite do renascer. Embarquei querendo, ondulei no sonho, colei-me do lado da liberdade e igualdade, afoguei-me nas revoltosas ondas da ilusão. Acreditei que os homens, os portugueses, fartos de tenaz ditadura, fossem capazes da imposição da justiça social. Mantenho incólumes os ideais do socialismo democrático de Mário Soares, orgulho-me do desfralde da bandeira rosa mas estou ciente do fracasso dos timoneiros que nos trouxeram até aqui.
Os Partidos Políticos, das extremas ao centro, os Políticos, o caldeirão democrático, geraram truque ilusionista, avançamos em arrecuas, criamos um embuste de que todos não podemos nem devemos estar orgulhosos. Esta fornada de ditos Servidores do Estado provou não estar à altura pois que esqueceu as gentes em favor da finança da roleta, do casino.
Sentem-se ondas de choque, o globo treme, os oceanos enchem-se de náufragos vivos, de almas sem pátria, de gritos que trespassam os ventos. Ao mesmo tempo os ouvidos e olhos de todos nós entram em colapso, a surdez e a cegueira viraram epidemia planetária.
A Direita e a Esquerda, ilusão governativa, colapsaram. Espero, com a fé dos crentes, que Costa apanhe o comboio da esperança e carregue, como bagagem, as malas da equidade, da igualdade e da liberdade pois que a Paz Social é o único cimento que une as gentes, o povo. O farejo de infância aviva-se em mim, pressinto sítios de ninguém. Os actuais Partidos que se cuidem. Existe o lugar, aguarda-se vida nesse Espaço Morto…