Finados

No dia 2, ao fim do dia, terei, como tantas outras gentes, dentro de mim, um vazio. Nada. É o dia de Finados, a lembrar a finitude ou a certeza de nada haver de maior certeza para todos. Todos.
A Morte não dorme, só nos contos de contar nas longas e frias noites de Inverno. Agora, só se menciona a Esquálida nos noticiários, no tempo exacto da menção estatística, alargado até à náusea se estiver em causa vedeta maior desta sociedade de espectáculo, leia-seDebord.
A morte artística, assim a apodo, não dispensa palmas, charamelas, bombos e directos. As atitudes perante a mofina acompanham a evolução das sociedades, não queremos a doença e o apagamento junto de nós, fascinam-nos as imagens das procissões de defuntos vivos apostados no divertimento plasmado e por ela inspirado. Repare-se nas pinturas e nas vestimentas das estrelas do momento.
A Morte chegou-se ao pé de mim de mansinho, sem palavras, ficou a ténue imagem da mãe num caixão, tinha quase quatro anos, recebi febrões de amor da minha avó. Mas faltaram-me os da Mãe?
Há ano e meio a Senhora da gadanha anunciou-se, fez tropel, esgadanhou as esperanças de viver do Filho maior, quarenta e dois anos, esperançados e alegres. Ele resistiu enquanto pode, depois soçobrou. E agora? Agora o terror de que passe novamente e leve o irmão.
Em tempos colaborei numa tentativa de explicar a dor, o palco era um grande hospital, o Director homem de enorme imagética entendeu da utilidade em percebermos as diversas dores da dor. Não sendo da área do saber que trata dos desmandos provocados pela perda de quem nos deve enterrar, escolheram-me dado alardear pujante alegria no desempenho de funções profissionais em qualquer lado, debaixo de todo o género de pressões. A experiência durou pouco, o júbilo venceu a explicitação das dores.
Os teólogos, os filósofos, os cientistas sociais enchem as bibliotecas de livros relativos à morte, se os lia, deixei de os ler, o desaparecimento de um filho gera monstruosa e às vezes mortífera dor a desobrigar-nos de cogitações inerentes. Desobriguei-me obrigando-me a ler poesia e ensaio.
O Dia Finados está reduzido a efeméride quase bafienta, num tempo de contabilidade de activos preferentemente novos e sãos, enumerar passivos sem remissão, contraria o consumismo em voga corporizado em crianças mimadas e mimosas, mulheres elegantes, de dentadura certinha, isentas de rugas, em homens vestidos a preceito apresentando-se em pose de vencedores. Apesar do aparato de segurança omnipresente, apesar da panóplia de cuidados, esta gente também vai envelhecer, ficar doente. Morrer. Ninguém escapa!