Formas de vida...

O homem, trajando de forma um tanto ridícula, subia a rua em jeitos e trejeitos de vaidade. Acompanhava-o uma mulher pronta a fotografá-lo quando o mesmo lho solicitava: ora a mão posta no fecho da porta de um automóvel de luxo, ora no da porta de uma casa típica do lugar, ainda pintada de fresco. E, de cada vez, o homem ensaiava um ar de senhor de um mundo bem para lá do seu, ego preenchido. Quando regressar ao seu habitat natural, exibirá as fotografias obtidas noutro habitat artificial, que, por uns momentos de glória, da sua glória, foi compondo. E venderá ao desbarato histórias forjadas, recheadas de condimentos atractivos aos ouvidos de quem, de boa-fé, embarque na má-fé do sujeito vaidoso.
No mesmo lado da rua, cruzamo-nos todos os dias e a todas as horas com outros, moldados no mesmo barro, figuras que vaidades e ilusões vão projectando para éteres de espaços e tempos virtuais. Academicamente minguados, procuram por meios outros e nesse ou noutros meios a compensação que lhes esmoreça complexos. Colocam-se em bicos de pés, à cata dos sítios por onde se movam figuras gradas, buscando pisar com elas os mesmos palcos da notoriedade, actores secundários, embora. Se a língua não se lhes dobra, ou se lhes dobra mal na conjugação do verbo ser, sem este perderem de vista, almejam, então e a par, declinar o ter, se bem que, amiudadas vezes, unicamente no imperfeito. Por incapacidade de ombrearem com os quesitos e os requisitos dos que pretendem tomar como pares. Também no rol das obras de arte nem todas são originais, cópias mais ou menos grosseiras abundando... Vemos essa gentalha manejar, saltitante, ora tacos de golfe, ora raquetas de ténis de campo, ora mergulhada em ginásios de gente in, almejando contactos mais ou menos passageiros, mais ou menos solidificados, estes quando se deparam com outros da sua igualha, que procuram, de forma quejanda, disfarçar a falta de puro sangue, ou, tendo-o, não se apercebem da falta dele nos “cristãos novos”. E por aí se vão mantendo, iludidos e iludindo, assim sendo e se mantendo felizes, enquanto não partem à cata de outras paragens, esgotado o filão que lhes deu estatuto por algum tempo. Pelo caminho, praticam uma forma estranha de caridade, mecenas para inscrever o nome em listas de pseudo-notáveis, enquanto que desviados da carência de alguns do seu grupo de pertença. E não desprezam um evento em que possam passear, mostrando-a, a vaidade imagem de marca.
Admiro aqueles que, idóneos na conjugação dos verbos ser e ter, em puro mais-que-perfeito, escolhem não o fazer, modéstia que não é vaidade, porém talhada forma de ser. Vestem como cidadãos comuns, escolhem lugares comuns para se divertirem e conviverem com outros como eles e, todavia, são seres acima dos seres comuns. Seja no mundo empresarial, seja no mundo académico. Se naquele a força natural das circunstâncias acaba por os fazer conhecidos das grandes moles humanas, já no segundo muitos passam uma vida inteira longe dos holofotes da fama, que não procuram, famosos somente para os seus pares. E famosos na sombra, quando as suas descobertas, a troco de muito trabalho suado e altruísta, se transformam em prémios pagantes da respectiva perseverança e, sobretudo, em bens imperdíveis para os outros, anónimos beneficiários. Por mim, agradeço a Deus pela sua existência.
Escrevo segundo a ortografia antiga.