Gaiteiros

Sempre que oiço uma caixa, clarinete, um tambor e uma gaita-de-foles, a memória, simpática, solta-me sons e imagens das festas de Verão, realizadas no paraíso de Vinhais. Festas pimponas. E não é opinião entroncada no saudosismo serôdio do antigamente é que era bom. Sim no saudosismo dos dias felizes, luminosos, do folgar e bailar. Para a maioria, fagueira interrupção na cansativa e quotidiana procura de sustento, sustentado como ora se diz, em época marcada pela insustentabilidade de um viver no fio da navalha da precisão. Os gaiteiros chegavam à minha aldeia na véspera, aboletavam-se nas casas dos mordomos, ceavam e ainda davam um lamiré da sua graça antes de irem dormir. Alvoroço a captar a atenção geral. Eram tratados fidalgamente, nem de outra forma podia ser, contavam contos das terras deles, aos olhos dos infantes quase possuíam auréola, eles tinham o dom de retirar sons doces, estridentes ou roucos dos seus instrumentos. Na altura movia-me a intenção de procurar saber como o gaiteiro obrigava a gaita a rir, a chorar, a fazer saltar os mais velhos, os novos saltávamos sem a maviosa provocação da música. Como seria dentro do fole? No papel de indagador aproveitei o fim do almoço para desvendar o mistério, o gaiteiro bem comido e bem bebido, franco e agradado, respondeu, mandando-me soprar. Galhardo, soprei. Nem um ténue vagido a gaita deitou cá para fora. Tentei de novo. Nem um gemido de gata dela saiu. O gaiteiro agarrou-a, soprou, a gaita esganiçou-se, amansou e julgo que terá tocado acordes da murinheira em honra de parente nosso ali presente há largos anos pastor na Galiza. A execução do gaiteiro agradou ao convidado, salmodiou qualquer coisa, as suas alpergatas bateram ritmadamente, as mãos também, as lágrimas soltaram-se-lhe dos olhos. O gaiteiro saiu para se juntar aos outros, na faceira iriam actuar, vinho tinto retirado de uma remeia ia-lhe molhar, repetidamente, as goelas durante a longa tarde. Se conferi poderes de demiurgo ao músico, procurei saber a razão do choro do duplamente afastado parente. A mão aleijada esfregou o dorso da outra, olhou-me, passeou-me o cabelo. Ficou mudo, eu não passava de garoto inocente. Desconheço se ainda há gaiteiros a animarem as festas daquelas terras carregadas de tradições e falhas de gente, eles representavam a configuração e diegética, o percurso musical dos nossos ancestrais. Talvez tenham passado à condição de semióforos, se assim é preservem tudo, primacialmente as músicas.