Habilitações maiores, empregos menores

Repeti múltiplas vezes e em variadas sedes que tudo começou com o desmantelamento das escolas técnicas (comerciais e industriais), formadoras de jovens qualificados para o exercício das mais diversas profissões no mundo laboral. Se constituíam o parente pobre do ensino secundário, o parente rico equivalendo ao liceu, haveria que lhes levar a dignificação devida, ao invés de, liminar e levianamente, as destruir, em obediência a um cego complexo de esquerda. Liceus e escolas técnicas converteram-se, então, em escolas secundárias que acabariam por conduzir os seus beneficiários ao tudo ou nada, em técnicos superiores, ou em técnicos de coisa nenhuma. Se ultrapassado com êxito o ensino secundário e o universitário ulterior, ficaria o jovem dotado de ferramentas que lhe permitiriam entrar esperançadamente na vida activa no desempenho de funções condignas. Se, inversamente, fosse insucedido no ensino secundário ou o finalizasse somente, ver-se-ia desprovido de meios de garantia da sua sustentabilidade económica, por inexistência de lugar para si no mercado de trabalho. Com o decurso dos tempos, tudo se agravou. A comunidade empregadora tornou-se incapaz de absorver a mão de obra disponível, qualificada ou não, e começámos a deparar-nos com licenciados em caixas de hipermercados ou noutros quejandos lugares, enquanto os demais começaram a proliferar pelas ruas das cidades maiores, em busca de emprego possível que não existia. Nestas circunstâncias, é vulgar lançar mão da extensão da escolaridade obrigatória, no sentido de tamponar a entrada dos mais jovens no mercado de trabalho. O que se fez, abrandando as ondas por algum tempo, somente. Paralelamente, acabou produzida enormidade de relevo, diminuído o tempo necessário para a obtenção de uma licenciatura, criando-se, em simultâneo, cursos de mestrado e de doutoramento integrados. Burla autêntica, a partir do tratado de Bolonha a que me permito chamar, antes, da vergonha. Entendo os mestrados e doutoramentos como derivados de um processo recursivo, em que o licenciado, adquirida experiência no tecido laboral, regressa à escola para aperfeiçoar os conhecimentos já detidos, conduzindo estes, de seguida, ao mesmo tecido, que o espera mais rico de saber, destarte gerada uma espiral de que beneficiam o trabalhador, a escola e o empregador. Mas assim não se entendeu (ou não se pôde entender) e, após uma mini-licenciatura, seguem-se, de imediato, sem que o estudante deixe arrefecer os bancos da escola, um mestrado e um doutoramento, igualmente reduzidos em quantidade de tempo para os obter e em qualidade que suportam, teses embrulhadas em escassas dezenas de folhas escritas em tipo de letra avantajado, quando não adquiridas via internet, logo ali, ao alcance de um punhado de euros. Como se tudo isto não bastasse, atente-se na criação de bi-licenciaturas (o dois em um), obtidas com cinco anos de faculdade, o tempo necessário, em tempos pouco longínquos, para a obtenção de apenas uma. Com o cenário assim descrito, a escolaridade tornada “avançadíssima” relativamente ao mercado de trabalho, não admira que nos deparemos com licenciados, mestres e doutorados a apresentarem-se a concurso para ocupação de vagas em empregos exigentes de habilitações bem inferiores. Claro que não excluo a possibilidade de alguns  candidatos o serem somente para embaraçar quem governa, logo a seguir desistindo da sua “aventura”, ou rejeitando o lugar que lhes possa caber “em sorte”...
Escrevo segundo a ortografia antiga.