A incógnita grega

A Grécia caminha para o colapso, dizem uns. Tudo se há-de resolver com maior ou menor dificuldade porque a Grécia não pode sair do sistema monetário do «euro», dizem outros. Tenderia a concordar com os últimos se, na mesa das negociações, estivessem pessoas normais.
Este artigo está ser escrito em 28 de Junho, às 22h00. Quando chegar aos leitores, no dia 2 de Julho, quase todos os pressupostos do seu conteúdo podem estar alterados porque estamos perante um problema que evolui rapidamente.
Não parecem ser pessoas normais aquelas que, do lado da Grécia, se sentam à mesa das negociações, em Bruxelas. Alexis Tsipras e o seu ministro das finanças, Varoufakis, usam dois pesos e duas medidas. Por um lado, querem afirmar o seu programa anti-austeridade falando alto com a imprensa mas submetendo-se aos de Bruxelas porque sabendo que, sem dinheiro, nada conseguirão fazer na Grécia. Por outro, desculpabilizam-se dos seus fracassos perante o povo grego pedindo agora a este para votar a favor no referendo do dia 6. Ou seja, renegariam o seu programa de esquerda a mando do povo desculpabilizando-se assim por não poderem cumprir as suas promessas eleitorais. Neste cenário, até poderiam pedir a demissão porque desautorizados no seu programa pelo povo grego. São assim algumas das elites políticas da Europa e da Esquerda
Os líderes das instituições europeias nunca quiseram expulsar a Grécia. Os representantes da Alemanha e da Holanda, talvez, mas os responsáveis europeus, nunca. Até ofereceram os lucros obtidos com a crise da dívida soberana grega como financiamento transitório e mantiveram a garantia de liquidez aos bancos gregos, garantia que, por enquanto, ainda se mantém. Mas, a verdade é que, tendo a Grécia de pagar 1,6 mil milhões de euros ao FMI no próximo (passado para o leitor) dia 30, rejeitaram a oferta.
Era uma oferta generosa, temos de reconhecer. Com ela o reconhecimento implícito de que a crise das dívidas soberanas havia sido muito má para Portugal, Grécia e Irlanda, má para Espanha e Itália, boa para os restantes países da Europa, com excepção da Holanda e da Alemanha, para as quais foi muito boa. Os credores querem sempre os seus lucros e, neste caso, até estavam a prescindir deles. Mas a  contrapartida grega tinha de ser a submissão ao programa austeritário. Tsipras e Varoufakis, sozinhos, na sua irresponsabilidade de esquerda, não estão para isso.
O povo grego fica assim entregue a um destino que tanto pode ser trágico e caótico (saída do euro) como tremendamente sofrido (submissão a um novo programa austeritário, prolongado por várias décadas).
Em qualquer dos casos, fica a lição dos carrascos que abusaram do seu poder (os elementos da Troika) e a irresponsabilidade dos governantes gregos que, durante décadas, fizeram de conta que corria eternamente leite e mel no deserto da economia grega.