Maluca santidade

No decorrer das actividades culturais levadas a efeito na semana passada pela Academia de Letras de Trás-os-Montes e a Câmara Municipal de Bragança, um dos actos mais exaltantes foi o da apresentação do VII volume da Bibliografia do Distrito de Bragança. O autor da monumental obra – monumento debaixo de todos os prismas – brindou os presentes com uma intervenção recheada de precisa informação relativa ao labor de dezenas de anos, agora colocado à disposição dos interessados, incluindo pareceres e opiniões de muitos que já lhe dedicaram atenção. O Mestre de tantos de nós bragançanos a determinado momento recordou que o Professor Adriano Moreira escreveu ser a Bibliografia obra de um santo, já o meu estimado e velho amigo José Monteiro num relance de intuitiva inteligência disse estarmos ante obra de um maluco. Daí o título da crónica. Tanto o Professor como o Mestre estão possuídos de rotunda razão nas qualificações aduzidas, o primeiro tendo em mente a divisa Ora & Labora dos beneditinos, quis acentuar o produto de três factores: persistência, persistência, persistência, de quem renunciou a mundanidades e ócios, também da sua inteligência na defesa da herança cultural dos transmontanos e todos quantos lhe têm dedicado atenção. O bem-querido Zé Monteiro conferiu-lhe o toque magistralmente enunciado por Erasmo no O Elogio da Loucura, dando fundada vazão ao sentido da desmesura complexa dos trabalhos levados a cabo pelo Dr. Hirondino Fernandes. O Zé Monteiro é um manancial imagético em todos os domínios. Os apressados, ainda os génios das bagatelas tenderão a considerar ciclópica a obra em causa, caso abandonem a janela do lugar comum dando-se ao trabalho de vagarosamente pousarem os olhos nas dezenas de milhares de páginas impressas em letra miúda ficarão cientes de desta vez terem acertado na classificação. Trabalho de santo paciente e disciplinado é gigantesco novelo artesanal proveniente da louca paixão do amante consciencioso da importância no garantir a perenidade das referências motivadoras do inflamado amor, as do Nordeste. O Dr. Hirondino agradado anotou os epítetos em causa, depois aproveitou o ensejo pedindo a todos a remessa de novas informações a fim de continuar o registo iniciado há décadas. Grande Homem.
 
PS. O título inicial desta crónica era outro, o Dr. Amadeu Ferreira ilustre mirandês e incansável defensor e divulgador da matriz cultural de Miranda, sugeriu este. Bem mais apelativo. Os meus agradecimentos.