Manuel Clemente

Escrevo no domingo, 7 de Julho, durante a consagração, nos Jerónimos, do novo patriarca de Lisboa. Como a tarde está de ananases, refresco à leitura de Manuel Clemente, como assina as duas edições de Portugal e os Portugueses (Assírio & Alvim, 2008, 2009). Consta de dez peças: fecham duas entrevistas, seguindo-se a três artigos sobre “Religião na Europa”.
Abre com o ensaio “Relação entre os Portugueses e Portugal”, e um parágrafo em contra-corrente: «É habitual insistir-se na nossa infinita capacidade de adaptação, seja aonde for. Pergunto-me se não se trata antes do contrário. Se não devíamos falar até da impossibilidade de deixarmos de ser quem somos, tal a densidade interior que acumulámos.» (2009, p. 9). As duas visões não são incompatíveis. Quanto a impossíveis, há núcleos crescentes de desagregação, e uma perda lenta dessa ‘densidade interior’ que Eduardo Lourenço designou como hiper-identidade.
Das “Notas de Cultura Portuguesa”, mereceriam detença “O culto de Nossa Senhora: da fundação à restauração da nacionalidade”, retomada em “Maria na devoção dos Portugueses: uma devoção nacional?”. Fiquemos pelo fecundo sobrevoo “Clericalismo e anticlericalismo na cultura portuguesa”.
Desde o século XVIII, sucederam-se o anti-romanismo, o antijesuitismo e, por alargamento deste, o anticongregacionismo de Oitocentos. Se a expulsão das ordens religiosas não mereceu aplauso geral dos liberais, pior foi a reacção ultramontana à carta dirigida por Alexandre Herculano ao cardeal-patriarca de Lisboa, intitulada Eu e o Clero (1850), com invectivas ao Historiador na própria igreja que ele frequentava, sem já falar na campanha do diário A Nação. Herculano negava a aparição do Crucificado (não do seu influxo) a D. Afonso Henriques antes da batalha de Ourique; e tomava a Igreja (catolicismo) como distinta do Evangelho (cristianismo), deste provindo a liberdade (e o tema da caridade), qual «filha primogénita».
A renovada colagem entre Clericalismo ou Catolicismo e Monarquia ‒ «Confusão que aumentou quando as organizações católicas se misturaram com o partido Nacionalista de Jacinto Cândido (1903)» (p. 30) ‒ justificaria perseguições, não raro atrabiliárias, da emergente República.
Já não só colagem, mas interpretação insensata, está nas palavras de outro antecessor de D. Manuel Clemente, o cardeal Cerejeira ‒ sobre quem não se debruça, elogie embora, numa entrevista, D. António Ferreira Gomes ‒, ao convidar António de Oliveira Salazar para estar em Fátima no 13 de Maio de 1946. Transcrevo de Franco Nogueira, Salazar, vol. IV, 1980, p. 49: «Foste tu o escolhido pela Providência para realizares tão grandes coisas quase miraculosamente. […] E o milagre de Fátima está à vista. Tu estás ligado a ele: estavas no pensamento de Deus quando a Virgem SS.ma preparava a nossa salvação.» O Providencialismo das origens nacionais transferia-se para um indivíduo.
Os católicos têm de perceber que as nossas primeiras guerras não foram só contra o Mouro ou Islão, logo, político-religiosas. Não é verdade que se lutou contra Leão e Castela, tão cristãos quanto nós? Assim, intervindo na política, como cristãos, e dos políticos exigindo equanimidade, será de evitarmos colagens ou dar lugar a confusões ‒ como, por exemplo, aplaudir, no interior de um templo, sob os vitrais de Santa Maria de Belém, um Presidente da República e o primeiro-ministro.