Nossos bons exemplos

            Em Agosto de 2013, durante as Jornadas Culturais de Balsemão, Macedo de Cavaleiros, tive oportunidade de conhecer uma tuna popular que muito me agradou. De tal maneira que, de vez em quando, não resisto a ouvir as peças por essa tuna ali interpretadas, dando-as a conhecer a amigos que, sem excepção, as consideram muito boas.
            Pois bem. Segundo a explicação que, na altura, nos foi dada, o seu aparecimento deveu-se, sobretudo, à desertificação do interior.
Como me apercebi, por ela são tocadas todas ou grande parte das peças do reportório de uma banda musical que deixou de existir, precisamente porque muitos dos seus executantes se viram forçados a emigrar.
            As pessoas que compõem a tuna são todas idosas; e os instrumentos de que se servem são: a guitarra clássica, o violino e o bandolim – todos eles tocados de uma forma invulgar.
            Falo da Tuna Popular Lousense, da freguesia da Lousa, outrora uma aldeia populosa, alcandorada na serra do mesmo nome, hoje reduzida a poucos habitantes, no concelho de Torre de Moncorvo.
            Ao mesmo tempo que a considero ser um bom exemplo de cultura, não posso deixar de lamentar o porquê do seu aparecimento: a já referida desertificação do interior.
            Sobre este grave problema que afecta o nosso país, não consigo compreender as políticas que conduziram a tal situação nem de forma alguma posso criticar quem procura o melhor para si, obrigando-se a deixar a terra que lhe serviu de berço.
            A particularidade deste grupo centra-se tanto na continuidade de valores como na memória de um bem, neste caso a banda de música de que tanto a freguesia se orgulhava.
            Tendo dado lugar aos conjuntos musicais, eram as bandas de música que alegravam as festas, tocando no arraial até de manhã. Normalmente, eram presença habitual duas ou três bandas que quase sempre competiam entre si e que se revezavam na actuação, mantendo assim a continuidade musical, ao som da qual se dançava até de manhã.
            Acabado o arraial, tocavam a alvorada, após o que recebiam dos mordomos o pagamento combinado e se despediam até outra oportunidade.
            Era uma alegria ver muitos dançantes junto dos coretos; e alguns daqueles, já com um grão na asa, proporcionavam, muitas vezes, com as suas exibições, uma boa disposição a quem os observava.
            Contudo, os tempos eram difíceis: trabalho duro e muita pobreza para a maioria da população cujo divertimento se concentrava quase só nas festas religiosas com o respectivo arraial, nos domingos de taberna, de danças no terreiro, de jogos populares e de manifestações culturais.
            Pelos vistos, atender às necessidades do interior parece que tem vindo a tornar-se um problema grave e incómodo para alguns decisores, tranquilamente alheados da responsabilidade que lhes foi outorgada também pela gente do interior