O descomprometimento do compromisso

Os últimos acontecimentos políticos demonstram à saciedade o descomprometimento dos parceiros da coligação em honrarem o compromisso de governarem acertadamente, eliminando as impurezas herdadas do antecedente, concretizando uma positiva forma de administração pública de modo a voltarmos a ter esperança num futuro melhor. Nada disso aconteceu. Os fantasmas das privações vividas durante séculos reavivaram-se trazendo com eles um fardo de interrogações e incertezas que julgávamos sepultadas na literatura, seja ao nível de Raul Brandão no Os Pobres, seja no patamar do neo-realismo, ainda nos escritos de inúmeros autores cujas obras revelam as causas e consequências da nossa forte decadência. Os actores políticos agora em evidência têm exibido pavorosa imagem, originando custos acrescidos nos empréstimos que a custo conseguimos, derivando daí enorme interrogação sobre o nosso futuro enquanto Nação, desde há largos meses a viver em regime de protectorado tal como aconteceu no século XIX. Os dirigentes da situação e da oposição mostram desconhecimento obras fundamentais para a compreensão do ser português, prevalecendo a omnipotência da fuga enviesada tendente à conquista e conservação do poder, mesmo que para tal seja necessário recorrer-se ao truque, à falácia, ao irrevogável hoje, revogável amanhã. Os percursos paralelos – acção política e interesses – são de difícil entendimento para a generalidade das pessoas, no entanto, de forma mais ou menos vincada, todos intuem a existência de maçãs bichosas na cesta do poder, que a não serem retiradas a tempo irão apodrecer as instituições levando revigoramento de perigoso populismo. Palavras lustradas de hipocrisia, escritos grávidos de ínvias intenções ganham terreno junto de humilhados e ofendidos cavando fossos profundos entre desempregados e detentores de emprego, entre velhos e novos, entre donos de algo e deserdados de tudo. As elites funcionais de matriz partidária substituíram a ilustração do espírito pela cultura do venha a nós, os interessados podem consultar obras recentes onde são elencados nomes e nomes de antigos e actuais agentes políticos peritos nessas áreas. Perigosamente se cria o clima propício a pagar o justo pelo pecador, apesar dos avisos vindos de personalidades doutas e donas de prestigiados currículos os ditos actores não querem saber lembrando tipos criados por Aristófanes. Da comédia à tragédia vai um passo. Será que conseguimos evitá-lo?