O DESPOVOAMENTO

Não faltam estudos credíveis sobre a evolução do povoamento humano nas próximas dezenas de anos, que do ponto de vista da globalização já são suficientemente preocupantes. Talvez a temática geral possa ser sintetizada na pergunta simples, que espera resposta, sobre a relação entre recursos e número de seres humanos a sustentar acrescentando um nível correspondente ao que hoje entendemos por dignidade humana. Depois, os estrategas seguem uma nova questão que é a predominância étnica a que tal evolução conduzirá, com frequência inclinando-se para se preocuparem com a China, e mais recentemente com África. Mas o tema vai ganhando em desafio à medida que o campo de observação se regionaliza, a começar pela Europa, muito especialmente com a que tem fronteiras políticas, que é a União Europeia. Aqui, não apenas o decréscimo da população que é abrangida pela identidade cultural e histórica inquieta os governos, e até alarma os demógrafos, porque não só a natalidade não repõe o nível populacional como as imigrações agravam o fenómeno, como acontece que as minorias compostas pelos que imigram do sul para este continente, usando meios de fortuna, e por vezes transformando o Mediterrâneo num cemitério de náufragos, vão fazendo crescer exponencialmente o grupo, especialmente muçulmano, que hoje talvez atinja trinta milhões de habitantes no espaço da União. Uma das circunstâncias inquietantes, que não tem que ver com a etnia nem com a crença respeitáveis ambas, é que a falta de políticas de integração e proteção jurídica dos direitos sociais contribui para que a assimilação não se processe, e que, ao lado da sociedade civil, que é a forma das sínteses históricas das comunidades e nações europeias, se formem multidões que não disfrutam de tranquilidade, e por vezes, como repetidamente tem acontecido, tornam problemática a segurança: Paris é um exemplo suficiente. Mas quando nos aproximamos dos nossos territórios do sul do antigo limes romano, em que Portugal se encontra, é inevitável que a nossa preocupação cresça pela soma de todos esses fatores que já fizeram com que a fronteira da pobreza tenha abrangido os países do sul do Mediterrâneo europeu. É essa uma das inquietações que precisam de ser incluídas nas meditações dos governantes, a começar pelos autarcas que vão assumir, e mais inquietante que antes, o dever de fazerem conhecer o país aos que sobretudo se preocupam, sob direção protetora, com a desafiante e teimosa relação entre os altos impostos e a despesa pública.