Os pafós

Há sessenta anos no dia de Entrudo os pafós passeavam-se em Bragança exibindo bustos de prateleira e meias de vidro ricas de borbotos apesar da maestria das apanhadeiras da Rua Direita, originando dichotes pesados provindos dos mirones plantados no vai vem do Cruzeiro, junto do Café Chave de Ouro e do Central. É que sobre os corpos desengonçados meneavam-se cabeleiras hirsutas a avolumarem as faces desbarbeadas mas grávidas de rouge e pó de arroz, acrescidos os lábios pintados a vermelho eclatante. Composições bizarras de gozada comicidade. Nas ruas: farinha, bisnagas a expelirem água, estourotes, à sorrelfa bombas pum, a multa queimava, constituíam o grosso do armamento carnavalesco acrescido de tremoços, se bem demolhados a acabarem mordiscados e logo mastigados pelo rapazio buliçoso. Em traço grosso a folia findava ao crepúsculo para a larga maioria, alguns homens avinhados, o almoço melhorado servia de lastro a empinanços tarde fora, mas de modo geral imperava o espírito da canção: uma casa portuguesa. À noite a separação social acentuava-se, os de «cima» dançavam no Centro, os de «baixo» na Associação. Nas ruas as bombas rebentavam esvaído o receio da vigilância policial. Na manhã imediata as missas matutinas lembravam a finitude expressa em cinzas. As senhoras idosas soluçavam rezas, a rapaziada cumpria a obrigação muito por mor das recomendações paternas, durante o dia lá para o Largo de S. Vicente, da Vila e de Além do Rio a da Gadanha multiplicada saía à rua de chicote em punho provocando alarido, correrias e esfoladuras nos joelhos dos caídos na precipitação da fuga. Nada de apoquentar. Agora não há pafós, é tudo às claras em nudez pintalgada no mimetismo pindérico do Brasil, perdeu-se a centelha humorística de cariz local mesmo quando se pretende criticar o algo de próximo, é tudo plástico, pantomineiro, prevalecendo o vulgar geral sobre o genuíno oriundo da nossa matricialidade. Adepto da unidade na diversidade aflige-me o facto de ao contrário das árvores que continuam a reflorir na Primavera, os travejamentos base da cultura imaterial vão-se apagando sem apelo e acima de tudo sem remorso. Na quadra de nada ficar mal aproveito o ensejo clamando contra o rolo compressor das diferenças que deviam sustentar o orgulho de sermos nós próprios evitando fazermos parte da amálgama indistinta pois as singularidades Nordestinas vão-se corroendo sem grandes protestos por parte de quem de direito. Veja-se o caso da acção turística.