Um Ponto de Encontro Chamado Golkeeper

Situado em pleno coração da cidade de Bragança, o Café Snack – Bar GolKeeper, aberto ao público no início dos anos 80 do século passado, é, porventura, em termos simbólicos, a par dos seus congéneres Chave d`Ouro e Flórida, aquele que mais nos remete para o nostálgico Café Cruzeiro – cujo encerramento foi considerado, para muitos que o frequentaram durante décadas, um “crime de lesa cidade”.
 Familiarmente conhecido por “Café do Néné”, nome do mais velho dos dois irmãos que constituem a sociedade, o Golkeeper é muito mais do que um lugar onde se toma café, se bebem finos, se comem tostas mistas, se degustam irresistíveis petiscos. Esta casa é, por excelência, um espaço de harmonioso e fraterno convívio.
O Golkeeper é um importante ponto de referência da cidade, um ponto de encontro e, provavelmente, dentro do género, um dos raros espaço onde gerações sucessivas, que vivem longe da sua terra, vão marcando presença nas férias de Natal, de Carnaval, da Pascoa e de Verão, desde os loucos anos 80. É nestas datas festivas que muitos colegas e amigos de longa data ali se reencontram, depois de 20/30 anos, representando, estou certo, um caso singular.
Neste e noutros ramos de actividade, não raros são os exemplos em que as sociedades comerciais (formadas por amigos ou por elementos da mesma família) têm como destino anunciado o fracasso, não passando, pois, de efémeras experiência, que resultam, na generalidade dos casos, do choque de “feitios” de quem as constitui.
Invertendo, num certo sentido, a lógica da durabilidade, o Golkeeper, como marca identitária de Bragança, justifica a invejável longevidade de três décadas no carácter e na personalidade de quem o gere e representa: o Néné e o Sérgio são duas das pessoas que melhor representam a alma bragançana: aliado ao civismo e à educação do berço, são respeitadores, sérios, honestos, leais, prazenteiros, solidários e, acima de tudo, prezam muito o valor da amizade.
Sem qualquer desprimor, o Golkeeper tem traços que o distinguem dos demais, assemelhando-se, nos propósitos, ao pequeno comércio de bairro e ao café da aldeia: é essencialmente um espaço de afectos. Além do gesto simpático de haver sempre um agrado para uma criança que ali entra (um gelado, um chocolate ou um chupa – chupa), há sempre a delicadeza impagável de perguntar ao cliente pelo pai, pela mãe, pelo filho, pelo irmão, pelo sobrinho, nos bons e nos maus momentos.
Mas, talvez, o gesto mais representativo da bragantinidade esteja presente neste episódio protagonizado pela gerência do Golkeeper, que dificilmente o poderia deixar de partilhar: num Sábado do distante mês de Julho, o Sérgio e o Néné decidiram brindar os clientes com uma sardinhada, debaixo do respeitável desígnio do convívio, numa contribuição monetária simbólica, que nem sequer dava para pagar as bebidas. Ao momento prandial juntou-se, inesperadamente, uma dezena de estrangeiros (de três nacionalidades distintas) que ali passava na ocasião. Comeram e beberam fartamente. Quando pediram a conta, foi-lhes dito que a despesa era por conta da casa. Provavelmente, outros, pouco escrupulosos e dados à ganância, ter-se-iam aproveitado da situação.
Estes meus prezados amigos e conterrâneos – de quem outra atitude não esperava -, ao receberem os forasteiros, da forma como o fizeram, numa espécie de publicidade institucional, deram o verdadeiro sentido à expressão receber de braços aberto e à palavra hospitalidade,  próprias da índole bragançana, que muito orgulhosamente reclamamos.
É esta gente que, tanto aqui como lá fora, tem a autoridade moral para nos representar, enquanto comunidade.