As Vírgulas, as Rotundas e os Semáforos

A propósito da escrita – meio através da qual, utilizando símbolos gráficos, organizamos o pensamento e exprimimos as nossas ideias -, um amigo perguntou-me, numa daquelas conversas de circunstância,  se não tinha a noção de que hoje em dia se usavam vírgulas a mais, referindo-se à produção literária em jornais, revistas, documentos oficiais, publicidade, etc.   
Como, naquele momento, não dispunha de elementos para assegurar uma resposta cientificamente consistente, optei por dar o meu “parecer”, sustentado no argumento de que o dito sinal de pontuação é como as rotundas e os semáforos: todos são necessários, se cumprirem a função para a qual foram concebidos, porque a compreensão e a funcionalidade de cada um não são indissociáveis do lugar que ocupam. Ou seja, o problema não é de quantidade, mas de localização.
Esta nota introdutória serve como pretexto para saudar a forma como a autarquia de Bragança (rompendo radicalmente com o “paradigma” do betão e dos projectos megalómanos, seguido transversalmente nas duas últimas décadas, e obedecendo a imperativos de personalidade que têm a ver com a vaidade de deixar a marca indelével da passagem), tem sabido, de forma sensata e racional, estabelecer prioridades na aplicação das verbas disponíveis.
 Porque sou sensível ao tema do urbanismo e às questões a ele associadas, não podia deixar de registar que esse virar de página é, quanto a mim, simbolizado pela novo e imperioso projecto que contempla o arranjo dos passeios em toda a cidade, e pela “avaliação” da funcionalidade ou não de algumas rotundas e semáforos existentes.
Nesta prudente gestão do Dr. Hernâni Dias e do seu elenco há um dado novo, que a mim, confesso, não me surpreende: a humildade e a sensibilidade para acolher e ouvir outras opiniões, quando se trata do bem comum, fazem parte da cartilha. Disso é exemplo a recentemente construída rotunda do IPB, que veio substituir, naquele mesmo espaço, os semáforos que ali existiam há algum tempo, mas que só serviam para complicar o trânsito.
Tecnicamente impreparado para me pronunciar, com propriedade, sobre a rotunda em questão, não me escapa ao entendimento que esta obra, tanto do ponto de vista da utilidade/funcionalidade, como da estética e do bom gosto, deixa orgulhoso quem a projectou e a concebeu. Um sentimento que, enquanto munícipe, partilho com extrema satisfação. Estado de alma que se projectará na futura rotunda da Braguinha – também ela, segunda consta, irá tomar o lugar dos fastidiosos semáforos ali em funcionamento.
À boleia do assunto, aproveito para sugerir aos responsáveis do urbanismo que coloquem uma passadeira (de preferência, com um grau de protuberância considerável, como as da rotunda do IPB) na Avenida Abade Baçal, em frente ao restaurante “João & Laura”. Tendo já sido reclamada pelos moradores, há quem a julgue desnecessária, em razão da proximidade entre as duas já existentes. Mas essa curta distância torna-se, no entanto, penosa para quem, com mobilidade reduzida, aqui mora e pretende atravessar a via para fazer as compras nas lojas em frente.
Um “pedido” que, satisfeito, pode não ser suficiente para se constituir como uma peça a juntar ao legado que um dia o nosso respeitável edil há-de deixar. Isto seria preocupante, se houvesse apenas uma só forma de se granjear o respeito e o reconhecimento dos seus concidadãos.