Ricardo Mota

Rota do Leite e do Sal…

Em Portugal, nesta ocidental praia lusitana, existem tesouros espalhados ao longo de todo o território. Agora, comigo ao leme de mim, no barco da vida, dependendo apenas da saúde, sugo o respirar, snifo as coisas simples, as que estão no virar da esquina, esperando-nos, sempre disponíveis para quem aparece.
Ao reler a extasiante entrevista a Sobrinho Simões, acompanhei-o no pensamento, sim, o nascer do primeiro neto é sinal do aproximar. Tal como ele, num destino, fujo da sensação de que talvez seja a última vez que ali vou.

Next Stop – Alfarelos…

Pela manhã, após pequeno almoço, a rotina impõe-me obrigações, são tirânicos os costumes, drogas mesmo. Sento-me ao computador, dizer rotineiro, debruço as pestanas nos títulos gordos dos jornais diários online, livres de ónus e encargos. Sempre que o futuro aparece, largo o passado, entro pela notícia adentro, sempre parca, avanço para a pesquisa em todas as plataformas à disposição. O além suga-me.

Rua do Cabecinho…

A praceta tem o nome de uma das ruas que nela desembocam. Nos fins de tarde, nas tardes dos Agostos de inferno, abrasadores e sufocantes, por aqui não vive ninguém, nem o zurzir das moscas se escutam. Os paralelos, granitos da região, aquecidos ao rubro, ajudam à festa, neste sítio grelham-se as mentes e as almas. As portas e janelas que se debruçam para este pátio há muito que deixaram de ter companhia, os ferrolhos, as dobradiças, as velhas fechaduras morrem de saudade de quem lhes dava o uso.

Ponto Morto…

Naqueles tempos, saudosos tempos, viajei algumas vezes a caminho do Douro, ao encontro de uma paixão, ali para os arrabaldes de Sedielos. A quinta, espraiada em vale fértil, com águas correntes e abundantes onde um Espigueiro respeitoso se erguia opulento, foi sonho de Família, foi a menina dos olhos de meu pai. Lá, entre a Régua e Mesão Frio correram tempos de menino, as poeiras foram companheiras de rodopio, conhecia de perto os ventos, amigos que me acariciavam vindos da majestosa Fraga da Ermida, mesmo no centro da Aldeia das Águias, de Guedes de Amorim.

O Desespero…

Fixemos o tempo, paremos o relógio, retornemos ao fim da era Sócrates, naquele exato momento em que a dita esquerda se uniu à direita, isso mesmo, em que a dita esquerda se uniu à direita e nos ofereceu, mistela venenosa, o mais tenebroso governo da nossa ultrajada democracia.
Oriundo de passado enigmático, formado nas instrutivas fileiras da juventude PPD/PSD, de curriculum invejável, timoneiro Tecnoforma, eis o homem, o novo Messias.

O Garrote…

 

Direitos de Classe…

 
É-me claro, evidente, mais que entendível, intuitivo. Vem dos filósofos antigos, dos que na Grécia andavam de toga e eram consultados nas decisões difíceis, no Conselho dos Velhos. Diziam, para quem os quisesse ouvir, nos senados democráticos, nos degraus dos teatros, entre colunas, nos Coliseus, para Césares, em todos os recintos públicos, que o motor que faz pular a humanidade provém do cerne do universo, lá no epicentro das galáxias onde moram a imortalidade e o conceito inatingível de infinito, do inconsciente pensamento de que fazemos parte do tempo.

Sócrates, Me Confesso…

Sábado, três da tarde, sol ameno. A árvore, ali mesmo defronte, abana-se ao mais leve sopro do vento que a acaricia. Já la vão uns vinte anos, meu sogro, Sr. Arnaldo, austero, a graciosidade de quem vai oferecer, arrancou uma franzina oliveira, podou-a com a ligeireza de quem sabe e disse: tome, leve-a para a Charneca da Caparica. E aqui está, risonha e companheira, sempre presente. A sombra que nos empresta, a todos que a procuram quando o calor desce e nos quer sufocar, é petisco de verão, sirvo-a juntamente com bebidas e outros mimos que arregalam a vista e descansam o estômago.

Entre…

Ente querido, porque cercado pela dor que dói, aconselhada foi a procurar serviço médico especialista, para o efeito colocado ao serviço do povo, em Hospital Publico de Lisboa, o ancião Hospital de S. José, ali para o Martim Moniz, o entalado. A placa, indicativa e que informa, é enigmática, coisas dos antigos, Mesoterapia.

Lições da História…

Atravesso amiúde o Tejo, extasio-me na ponte Salazar/25 de Abril, arranco da Charneca de Caparica, onde vivo e adormeço ouvindo as falas do oceano. Quando a caminho da capital, abençoado pelo Cristo Rei que de braços estendidos me abraça, contemplo Lisboa luminosa que atrai e conquista o mundo. De branco imaculado, pedra da serra dos Candeeiros, obriga à contemplação, sufoca, espanta, extasia e provoca a aventura pelo desejo de a conhecer.