O tempo ao contrário

Chuva e frio quando se anseios pelos primeiros raios de sol primaveris, calor abrasador quando muita  gente já suspira pelas primeiras chuvas (moderadas).
O tempo anda cada vez mais ao contrário e a fazer descarrilar a vida do pobre agricultor.
“Ando nisto há meia dúzia de anos e a cada ano é diferente, não dá para prever um comportamento da produção”, comentava, esta semana, um técnico ligado aos castanheiros.
De facto, este ano, a produção de fruta tem sido afetada ao longo de todo o ano, seja porque esteve muito frio na primavera, na altura da floração, seja porque houve muita água quando se pedia calor, seja porque há calor quando já se pede água.
E, enquanto isso, a floresta arde. E cada vez mais.
Sem formas de subsistirem, os agricultores transmontanos foram empurrando os filhos para outras vidas, longe do campo, longe da terra, longe da região.
Ficou a dor, ficaram os campos e ficaram as silvas. Que agora servem de combustível às chamas, que levam tudo à frente.
O chamado ordenamento da floresta passa por aí. Por criar condições aos que podem e sabem tratar dela, como têm feito ao longo de centenas de anos.
Passa por plantar carvalhos, castanheiros, nogueiras em terra deles e não pinheiros e eucaliptos, que podem iludir com um eventual rendimento mais imediato mas que muitas vezes se traduz numa miragem consumida pelas chamas (experimentem passar por uma floresta de carvalhos e comparem a frescura e humidade com a de um pinhal ou eucaliptal).
Enquanto isso, os nossos campos vão ficando cada vez mais abandonados e à mercê das chamas. Como diz o Papa Francisco, na encíclica Laudato Si, “quando os seres humanos destroem a biodiversidade na criação de Deus; quando os seres humanos comprometem a integridade da terra e contribuem para a mudança climática, desnudando a terra das suas florestas naturais ou destruindo as suas zonas húmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar... tudo isso é pecado». Porque «um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos e um pecado contra Deus”.