A opinião de ...

De Outeiro até Baçal

Confesso o meu privilégio e enorme prazer por ter tido a oportunidade de participar como convidado na belíssima e bem organizada cerimónia das celebrações festivas de elevação do santuário de Senhor Santo Cristo da freguesia de Outeiro, concelho de Bragança a basílica menor, por decisão de Sua santidade o Papa Francisco, para quem o mundo olha agora surpreendido e esperançado em Tempos Novos portadores da paz e justiça a toda a Humanidade. Foi um momento memorável e muito caloroso de convívio que reuniu quase um milhar de pessoas irmanadas nas suas intenções e que souberam aplaudir os esforços da primorosa organização e de quantos a animaram com a sua arte e talento. É certo que o dia estava farrusco, chuvoso e até bastante frio mais parecendo dum já rigoroso inverno, se bem que este Outono, nem sequer ainda trouxe a branquidão da neve às encostas da serra da Sanábria, referência visual dos bragançanos e que o Abade de Baçal sempre falava nos seus escritos.
A propósito desta insigne figura da cultura nordestina, estamos em condições de informar que caso tudo corra de acordo com os nossos desejos e da resposta das entidades já contactadas e ainda a visitar, irá ser lembrado no próximo ano já que se celebram os 150 anos do seu nascimento e o primeiro centenário da criação do bonito e bem organizado museu que agora leva o seu nome. Oxalá que o Dr. Hernâni Dias, presidente da câmara Municipal de Bragança, na linha do que tem sido o seu apoio a iniciativas de carácter cultural e de defesa do património regional, saiba avaliar a importância do projectado evento bem como os demais responsáveis e dirigentes políticos nos quais incluo a Comunidade Intermunicipal das Terras de Trás os Montes, na pessoa do seu presidente do conselho directivo, Dr. Américo Pereira. Mas não só as entidades públicas são chamadas às suas responsabilidades, pois as empresas, banca, associações e até os cidadãos são igualmente chamados às suas obrigações de divulgar os valores regionais, homenageando e dando a conhecer os seus melhores.
De facto, Francisco Manuel Alves, assim se chamava o Abade de Baçal, foi uma figura de grande dimensão humana e cultural do seu tempo, a primeira metade do século XX, como bem o testemunham as ilustres personalidades entre as quais se contam Mestre Aquilino, Abel Salazar e Leite de Vasconcelos, que se deslocaram à então longínqua Bragança para o visitarem e cujo registo ainda é visível nuns gatafunhos das paredes da varanda da casa que habitou. Custa a compreender como este homem produziu em tão inóspitas condições, um obra quase gigantesca que vai da arqueologia à história ou da etnografia à heráldica e se a isto acrescentarmos a sua colaboração com muitos jornais e revistas ou as conhecidas deslocações a pé(!) para consulta ou recolha de elementos, mais difícil se torna  ainda imaginar o seu trabalho!
È deste homem simples mas cuja obra muito terá contribuído para a identidade trasmontana e sobre o qual se conhecem algumas histórias de enternecer, que Bragança, sob a égide do titular da Diocese D. José Cordeiro, irá dar a conhecer com a pompa e circunstância que lhe é devida. Vivificar a memória dos nossos maiores que humildemente nos legaram o valiosíssimo fruto do seu trabalho, é um dever da geração contemporânea levando-o também aos mais jovens, uma missão que é da responsabilidade de todos.

Edição
3503