A opinião de ...

COGITANDO SOBRE O FUTURO

 
Depois das eleições legislativas em Portugal, eleições presidenciais na Bielorrússia.
As primeiras, inquestionavelmente democráticas; as segundas, inquestionavelmente fraudulentas.
É verdade que para os Portugueses em geral a ditadura mais ou menos encapotada na Bielorrússia é coisa menor.
Em boa verdade, que havemos de saber desse país latente sobre os olhares divertidos da Rússia?
Que tem uma população similar a Portugal, embora mais pobre e com uma esperança média de vida inferior em cerca de 15 anos.
Que ali, a população analfabeta rondará os 0,3% (não há engano na cifra!), o que prova que os regimes autocráticos também florescem bem em sociedades altamente alfabetizadas.
Sim, porque é de uma ditadura que estamos a falar, uma ditadura que, de tempos a tempos, se submete, folcloricamente, aos rituais da democracia, promovendo eleições que dão a vitória, invariavelmente, aos mesmos.
Por isso, o atual Presidente exerce funções desde 1994, eleito repetidamente com maiorias absolutíssimas e sem limitação de mandatos, porque ele assim quer!
Uma ditadura à boa maneira soviética onde não falta a polícia secreta, ainda hoje denominada de KGB sedeada num imponente palácio numa das principais avenidas de Minsk, onde a economia é dominantemente pública, onde a terra, por sinal extremamente fértil e bem ordenada, é pública e a produção é planificada a nível central e entregue ao Estado.
Numa palavra, a Bielorrússia não questiona os princípios de Lenine (que continua a ser endeusado em concorrência com o cristianismo ortodoxo) e é uma espécie de museu vivo dos tempos da ditadura soviética.
Quem não viu o funcionamento da União Soviética tem agora uma última oportunidade: uma visita à Bielorrússia!
Porém, na semana passada, sobressaltou-se o trono de mais de vinte anos de Alexandre Lukashenko, o Presidente atual e de novo candidato e de novo vencedor antecipado por larguíssima maioria para mais 5 anos.
Como é que uma mulher sexagenária, de rosto bolachudo, nada eslava na sua compleição física, simpática e delicada no trato, Svetlana Alexievitch, pode ser responsável por aquele sobressalto do sempiterno Lukashenko?
É que, inesperadamente para muitos e, em má hora para os donos da Bielorrússia, Svetlana ganhou o Prémio Nobel da Literatura.
As primeiras declarações políticas de Svetlana, tolerada pelo regime desde 2011, foram corrosivas: que não votaria porque estas eleições de 11 de outubro “não servem para nada”.
Tive oportunidade, por meio de procedimentos de filme de espiões, encontrar-me com a escritora, durante breves minutos, na companhia de mais dois colegas deputados um sueco e um espanhol.
Foi para mim um momento singular, obviamente, e com ela lamentei que os seus livros estivessem atirados para sítios esconsos nas duas livrarias que percorri em Minsk, que a sua fotografia não estivesse estampada nas primeiras páginas dos jornais do dia 9 e dos dias seguintes, que a televisão pública apenas lhe tenha consagrado uma notícia de 20 segundos no dia 8 (dia do anúncio do Prémio).
Não importa, Svetlana Alexievitch fez abanar o trono todo-poderoso e inquestionável.
Ela e os destemidos meios de comunicação que, pela internet, foram incansáveis, detalhados, prolixos e imparáveis na divulgação da vida, da obra, do pensamento e das análises sociais e políticas de Svetlana.
Os processos democráticos também podem começar assim. E quem sabe se nos próximos anos, até nós, em Portugal, não badalaremos a Bielorrússia nas nossas conversas de circunstância como fizemos, há mais de duas décadas com a Polónia ou com a Roménia ou, mais recentemente, com o Tunísia.
Pode ser.
 
Adão Silva
Deputado e Presidente da Delegação Parlamentar Portuguesa da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE)

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