A opinião de ...

[A INFÂNCIA DOS DIAS] - Histórias do Mundo

Todo o instante presente é imensamente limitado, curto e fugaz. Com a idade vai-se ganhando a medida e o peso do vivido. Aprende-se a colocar a vida em perspectiva, a enquadrar, a focar os gestos e as palavras, a distinguir o importante do secundário. Parece, porém, que nunca a soma do vivido nos capacita para dar conselhos. Aconselhar é coisa séria. Tem qualquer coisa do alfaiate que, partindo das suas medidas, faz fatos para outros.

Assunto sério é também o que gravita em torno do número 7. Julgo que em toda a literatura e filosofia sagrada não haverá número mais presente e denso de significado.

Pois pedes-me sete conselhos como reflexão para a Profissão Perpétua na Vida Religiosa. Ultrapassada a mudez do espanto e depois de, em vão, te sugerir as sete virtudes (as 4 “cardeais”, enquanto eixo ou charneira onde giram todas as outras virtudes morais, e as “teologais”, enquanto dons recebidos de cima, de Deus), conversei com os “comigos de mim” e escrevi estes que talvez só a mim sirvam. Em todo o caso, não os leias como palavras de conselheiro. Se alguma coisa encontrares que a ti te sirva, toma-o como partilha de alguém para quem a tua felicidade é importante e sabe que o nosso mundo será mais habitável, mais fraterno, mais humano (porque mais divino), se fores fiel ao que te leva a esse passo.

1. Sê senhora da tua vontade e escrava da tua consciência – o conselho vem do fundo dos séculos, mas é de todos os tempos, porque o teu pior inimigo, talvez o único, és tu mesma. É  por dentro de nós que começam todos os caminhos.

2. Seja o Evangelho o teu livro.

3. Procura viver livre, com a liberdade de quem, liberto da lei, do preconceito, do olhar do outros, acolhe quantos trazem no peito a letra escarlate que o mundo bordou. O amor é a única prisão que liberta.

4. Grava no teu coração, se necessário, escreve-o no papelinho que trazes no bolso: ainda que tudo… “se não tiver caridade, serei como o bronze que soa e o címbalo que retine”. 

5. Procura conservar a serenidade que nasce da confiança de quem se sabe amada, antes ainda de concebida, e mais querida que as aves do céu e os lírios dos campos.

6. Permite-me esta nota pessoal: não gosto de ouvir consagradas a falar duma suposta radicalidade de vida. Traduz isso uma superioridade apartada, um ridículo toque de guizos ou hastear de bandeira em Marte. 

“Quando jejuares…”. O sacrifício e a entrega desmedida que vês em tantos que palmilham contigo a mesma estrada, deve fazer-te alegremente agradecida e humildemente silenciosa. O maior, neste caminho, é o que mais serve. 

7. Ouve-O. A poucos, como a ti, a vida oferece condições para o fazer. E, sobretudo, sê um Sinal Maior, uma Primavera benfazeja; não deixes que o extraordinário compromisso que hoje assumes se torne um modo de vida cómodo e vulgar.

 

Agora sim, para terminar, deixa-me dizer-te o que há muito já sabes: o Espírito, como o vento, sopra onde quer e por vezes inaugura em nós caminhos estranhos e inéditos. Talvez por isso seja sensato ponderar o conselho de C. Debussy: “Não oiças os conselhos de ninguém, salvo do vento que passa e nos conta as histórias do mundo”.

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