Sobre o Grupo Desportivo de Bragança

No passado dia 3 de Maio, o clube mais representativo do distrito de Bragança conheceu, porventura, para a escolha da sua direcção, as eleições mais polémicas da sua longa e respeitada história; ao ponto de, imagine-se, a facção derrotada recorrer para tribunal, por, alegadamente, o adversário ter feito batota – um facto “sem precedentes”, como agora se diz.
Duas razões para não me pronunciar sobre o assunto: por um lado, não estou minimamente documentado para o fazer, por não ter acompanhado a “novela”; por outra, tenho amigos nas duas partes litigantes, o que me coloca, obviamente, numa situação de desconforto.
Como ex atleta e ex sócio do clube, partindo do princípio de que a legitimação do voto nas urnas é confirmada pelas instâncias judiciais, o que me parece urgente resolver no Grupo Desportivo de Bragança é a política de formação das camadas jovens, que, nos últimos anos, se transformou na completa negação daquilo que ela deve ser.
É por demais sabido que a autarquia atribui anualmente uma verba simpática à formação dos jovens atletas do GDB. Dentro desta realidade, é estranho os pais dos miúdos suportarem as despesas a que o clube se obriga: pagam a habitua jóia, pagam a mensalidade, os equipamentos, as chuteiras e as refeições, quando vão jogar fora. Como estranho é também o município nunca se ter interrogado sobre esta situação, conhecida publicamente!
Tenho notado, no que às camadas jovens diz respeito, algum amadorismo anedótico, na forma como se trabalha com os petizes e o ambiente que lhes é proporcionado. Formalmente, o GDB tem um ou dois treinadores para cada escalão. Mas, na prática, quem “dá os treinos” e “orienta os jogos” são as mães dos futuros “cristianos ronaldos”, com indicações constantes para o relvado: “filho, ataca a bola!”, “filho, dá linha de passe!” e  o intraduzível “bascula, bascula!”. Além da pressão que se exerce sobre a pequenada, este tipo de postura é uma forma de desautorizar aqueles a quem a gente de palmo e meio julgam ser, naquele contexto, a autoridade incontestada.
Por carolice ou movidos por outras razões, alguns pais preenchem a lacuna criada pela falta de dirigentes nas camadas jovens. Estão permanentemente nos treinos e nos jogos, fazem sorteios para realizar dinheiro, tratam da papelada para os jogos, são roupeiros, assumem a logística nos jogos em casa e fora, marcam os almoços e os jantares, organizam os convívios aquando dos torneios, etc. No entanto, ainda que inspirador, este voluntarismo pode ser questionável, por criar algumas situações de injustiça, fenómeno com que a pequenada convive muito mal.
Este envolvimento dos pais (ou a falta dele) é apontado, num considerável número de casos, como um dos grandes responsáveis pela injustiça na aposta dos jovens para integrar a equipa sénior. Tendo em conta, pois, o saudável princípio da valorização da qualidade - os melhores têm forçosamente que ser premiados, independentemente de serem filhos de quem são -, e uma vez que é intenção do actual elenco directivo fazer valer tal critério, interrogo-me sobre o porquê do jovem André Reis, de 22 anos, natural de Bragança, que é, na opinião consensual e autorizada, o melhor guarda -  redes a actuar no distrital, não fazer parte do plantel do GDB!
Estando longe de ser um “catedrático da bola”, arrisco dizer que o André, caso lhe fosse proporcionado o palco que merece, seria atleta para altos voos: tem uma presença na baliza fantástica, tem agilidade de felino e, como poucos, mesmo na primeira liga, possui uma incrível habilidade de pés. Como pessoa, é daqueles jovens de quem um pai se pode orgulhar. No campo, seja em jogos oficiais ou no torneio da função pública (aqui joga à frente e destaca-se dos demais), é a antítese do “mau - feitio”.
Porque o futebol não é apenas aquela “fábrica” de sonhos e ilusões onde se aprendem conceitos de táctica de  jogo,  mas, acima de tudo, os valores da solidariedade, do desportivismo e do respeito pelo próximo, era importante que, de um vez por todas, se apostasse nas camadas jovens com a seriedade que as mesmas requerem. Pois, só semeando, se pode colher.