Alcaparras!...

Falar ou escrever sobre a identidade rural, as origens, os produtos da terra, é algo que me motiva, entusiasma e alegra a alma. Este “púlpito” tem sido reflexo disso mesmo. Da expressão da minha identidade com a “terra”, com as tarefas e produtos agrícolas, com as atividades socioculturais e a gastronomia regional, numa envolvência potenciadora de alegria e energia para a vida. É que tudo aquilo que gera em nós recordações positivas, motivações acrescidas e nos emociona, varia em função da nossa identidade, dos nossos valores gostos pessoais, responsabilizando-nos na missão de acrescentar, promover, valorizar… O que implica termos consciência da nossa condição de herdeiros do passado, daquilo que os nossos progenitores faziam e como subsistiam, tornando-nos administradores do presente, com o dever de acrescentar qualidade com potencial para as gerações futuras, num mundo mais coerente, sustentável e consciente.
Vem isto a propósito da valorização dos produtos da terra, daqueles que os produzem e do inerente potencial gastronómico e, consequentemente, económico. Poderia falar, aqui e agora, de inúmeros produtos, sobretudo da nossa região, alguns dos quais estarão a ser subestimados no que toca ao seu interesse culinário e alimentação saudável. Mas que são de fácil produção e acesso. Assim os responsáveis da restauração se interessem, os valorizem e façam deles produtos de excelência nas mesas de degustação.
Um dos produtos que, para mim, nesta altura do ano, merece especial apreço, são as alcaparras. Sim, sobretudo quando a sua feitura, cura e conserva se sustentam nas seculares e genuinamente tradicionais formas de apanha/colheita e tratamento/tempero. As alcaparras com o seu sabor característico, quando aromatizadas com as ervas do campo, que até lhe conferem um cheirinho especial, além do valor nutricional, a sua apresentação na mesa reveste-se, sempre, de um valor acrescentado, mesmo até ao nível visual.
Por isso, não posso deixar de salientar, por exemplo, o facto de as alcaparras terem feito, no passado sábado, parte da ementa do almoço inserido no programa do Magusto Comunitário da freguesia de Macedo do Mato, Bragança. Sem dúvida, uma das iguarias que mais autenticidade e valia gastronómica conferiram ao repasto, até porque excelentemente curadas, saborosas e bem apresentadas, acabaram potenciar redobrado apetite. Claro está, não esquecendo as protagonistas, ou seja, as castanhas.
Lembrei-me, então, da minha mãe, da mestria e dedicação que envolviam a cura das alcaparras e o carinho que lhes era conferido, fazendo delas um “mimo” incluído na alimentação da família.
Recordo, quando, nos tempos de adolescência/juventude ia apanhar/colher as azeitonas ao olival e, já em casa, as partia sobre uma pedra com um martelo ou, na ausência deste, utilizando uma outra pedra. Depois, a delicadeza e o segredo da cura, já ficava aos cuidados da matriarca. Um ritual que se repetia todos os anos. Sem nunca esquecer a “ossinha” para colocar na calda, que lhe confere gosto e cheiro específicos.
Sendo um produto gastronómico singular de elevada qualidade, interessa, com efeito promover consumo das alcaparras, para que seja um valor “muito” mais acrescentado à gastronomia nordestina e, inerentemente, à economia local. O Butelo e as casulas podem ser um positivo exemplo a seguir.