A Árvore do Pão

No decurso de breves quanto intensas e ridentes palavras trocadas com o Dr. António Rodrigues disse-lhe que este ano o PÃO será o tema principal do Festival Nacional de Gastronomia, a realizar, tal como nas edições anteriores, em Santarém. A robustez e amplitude do tema deu ensejo ao Dr. Rodrigues a oferecer-me o livro A Árvore do Pão, cujo autor é o Bispo de Bragança, Dom José Manuel Cordeiro.
Agradeci a oferta. Posteriormente recebeu a devida atenção.
Falho de conhecimentos não posso comentar o seu conteúdo (julgo não errar) de natureza Eclesial e Litúrgica, no entanto, o simbólico ouriço recheado de castanhas incita-me a carrear palavras na tentativa de explicar quão importante são as árvores na nossa vida espiritual, pois no tocante à material a tarefa está facilitada.
Um filósofo escreveu: “não se conhece a si próprio o homem que nunca meditou sobre os problemas da relação do seu espírito com a língua falada e escrita.” Ora, da obra em referência, tal como dos ouriços brotam palavras a intimarem-nos a pensar, a pensarmos sobre a natureza das coisas de molde a encontrarmos saídas sadias, sólidas e sensatas para a resolução ou pelo menos diminuição das carências sociais mortificadoras do espírito, logo da genuína e livre expressão da língua falada e escrita. As palavras miolo deste livro vão de encontro às preocupações do filósofo. Penso eu.
Na aldeia de Lagarehos existe um majestoso castanheiro, de grosso modo o seu bilhete de identidade atribui-lhe vários séculos de idade. Dado o seu rotundo ou grávido porte ganhou o apodo de castanheira. Não vejo, observo e contemplo a castanheira na perspectiva de cíclica e pendular árvore produtora de castanhas, o fruto chave, primacial durante milénios dos Nordestinos, entendo-a como refulgente hierofania existente no concelho de Vinhais. Outras há na Terra Fria transmontana.
Estamos a viver tempestades de várias matrizes cujos efeitos ainda não intuímos substancialmente quanto mais os de ordem social e material, no entanto, urge prepararmos as mentes e os corpos de maneira a suportarmos os dolorosos embates escorados nas traves espirituais a fim de suplantarmos as dificuldades. Não as suplantarmos significa soçobrarmos.
Atrevo-me a considerar o título e a castanha a despontar no ouriço pousados na capa da obra como elementos significantes da transmutação da árvore material antiga fonte alimentar, numa árvore espiritual onde as palavras, todas as palavras e linguagens no desejo de os valores do espírito e sua exaltação integrarem as nossas vivências quotidianas e não apenas no pináculo de celebrações merecedoras de profunda reflexão. O que não acontece.
Alguns leitores recordam-se do perturbante livro – Nem só de pão vive o Homem – inspirado na bíblica invocação “do suor do teu rosto, comerás o teu pão”, pois por não viver só de pão feito de cereais, ganha se descobrir outros pães, por isso nesta Páscoa vou reler – Pão Partido Em Pequeninos – penetrante obra do tão formidável como esquecido prosador Padre Manuel Bernardes. Eis um gigante das letras mergulhado na obscuridade. Porquê? Porque prevalece a facilidade sobre a qualidade, o efémero feérico sobre a solidez estruturante de mentalidades e pulsões positiva. Ler a Nova Floresta é prazer de tomo, se poucos o fazem é direito que lhes assiste, embora não é admissível o mau trabalho dos burocratas da cultura ao silencia-lo.
Armando Fernandes
PS- Boa Páscoa.