A crise dos partidos e a debilidade das democracias

Vivemos um tempo de profunda descrença nas instituições e em quem as lidera. A causa pública, ode da mais puritana e nobre missão, tem vindo a ser pervertida por um jogo de interesses onde a promiscuidade se sobrepõe aos valores fundamentais da democracia e da ética republicana.
Os partidos políticos, com mais acutilante expressão nos maiores, foram capturados por caciques que se encarregam de pagar quotas e de garantir o “triunfo” daqueles que melhor satisfaçam os seus interesses pessoais. E, infortunadamente, esta é a prática que se tornou viral nos partidos do poder: em cada secção, concelhia ou terriola há uns “ajuntadores” de votos que pagam quotas e no dia das eleições levam, como se fosse de um redil, aqueles a quem pagaram as quotas para fazer a cruzinha no seu candidato. E a democracia “dita representativa” chegou a isto. Perdeu-se a consciência moral e o respeito pelo outro naquela em que consiste o pilar fundamental da democracia: a liberdade para escolher. E, não tenhamos dúvidas, os partidos são a espinha dorsal de uma democracia e, por isso, o nível de exigência quanto à sua organização e transparência dos processos, é fundamental para a sua credibilidade e para a sua afirmação como legítimos representantes de quem neles confia o seu voto. E não vale a pena fazer como a avestruz para tentar iludir o crescente descrédito nos partidos, ignorando os níveis assustadores da abstenção nas eleições e o declínio, senão mesmo desaparecimento, dos partidos “tradicionais” em muitos países do “velho continente”.
Li recentemente um livro onde, com algum exagero, se condenava a democracia tal como existe, que permitiu a eleição de Trump nos EUA, de Teresa May no Reino Unido, para além de outros idiotas medíocres, no qual me chamou a atenção um exemplo categórico: nos EUA foi feita uma dezena de perguntas a dez pessoas que assumidamente eram eleitores do Partido Democrata e as mesmas dez perguntas a eleitores do Partido Republicano. Essas perguntas eram simples e limitavam-se a questionar cada eleitor entrevistado sobre se estava de acordo com cada uma das medidas tomadas pelo partido Democrata, ao que os democratas responderam que sim, e os Republicanos responderam a todas que não. Ocorre que as medidas tomadas não tinham sido da iniciativa do partido Democrata mas antes do partido Republicano. Este recorte, com laivos de imbecilidade grotesca, prova à evidência que grande parte dos eleitores vota por “clubismo”, sem saber o que está em causa e numa aderência total ao vazio das ideias, do conhecimento das propostas e do suporte ideológico que distingue, ou deve distinguir, o que é Democrata ou é Republicano.
Por outro lado, as democracias ocidentais têm permitido que o crescimento económico e a inerente geração de riqueza, decorrente do progresso científico e tecnológico, vá sempre parar às mãos dos mesmos, cavando as mais profundas desigualdades entre quem tem acesso ao poder e aqueles que, assalariados ou por conta própria, vêem o seu esforço ter como recompensa um resultado de soma nula. Nunca as sociedades, ditas evoluídas, foram tão desiguais e tal circunstância tem feito crescer movimentos populistas que cavalgam a onda de descontentamento e revolta dos excluídos e daqueles a quem sobra o mês e falta o dinheiro, para promoverem movimentos extremistas que são a maior ameaça e debilidade das democracias representativas ocidentais.
Confesso que tenho muita dificuldade em entender esta deriva das democracias, as quais são um modelo de regime que não tem mais de cem anos e que deram ao mundo os Estados de direito, onde a liberdade de imprensa e de expressão, conjugada com livre direito à escolha através do voto universal e secreto, conferiam todas as condições para que os representantes fossem os melhores e fizessem o melhor, em benefício do bem comum. Por isso, é desolador, - para quem, como eu, com o voluntarismo de um jovem adolescente, aderiu a causas que se transformaram na razão de ser de convicções inabaláveis - assistir a esta degenerescência maldita que se constitui na negação e, seguramente, na destruição desse labor tão árduo que combatentes generosos promoveram para que a democracia garantisse a cada cidadão os direitos fundamentais para a progressiva melhoria das suas condições de vida. Por isso, lembro com nostalgia e saudade os homens e as mulheres que ergueram esse “edifício magnífico” que concedeu ao mundo civilizado as democracias plenas, que, não estando isentas de defeitos, não tinham o grau de porosidade para que a corrupção dos valores subvertesse o código genético do voto livre e individual na escolha de quem nos representa e não permitisse que incompetentes impreparados, política e intelectualmente, emergissem para representar e dirigir os partidos com base em “sindicatos de voto” que são a vergonha e o despudor de quem se serve do caciquismo para legitimar o que nunca poderá ser legítimo. Receio bem que este possa ser um sinal muito forte do fim de um ciclo.