Crónica Citadina

Há coisa de um ano, enquanto munícipe, neste jornal, numa espécie de carta aberta, dirigi-me ao Dr. Hernani Dias, insigne edil bragançano, para lhe dar conta de alguns constrangimentos que a cidade apresentava ao nível da mobilidade rodoviária.
Apoiado em meia dúzia de exemplos, referí, então, que, em algumas zonas da cidade, uma distância real (em linha recta) de 30/40 metros, entre um ponto A e um ponto B, obrigava os automobilistas a percorrer quase um quilómetro. Como prova factual, apresentei os casos paradigmáticos do acesso ao bairro mais populoso de Bragança, o da Mãe d'Água (competamente sitiado, e onde,para lá entrar, só com recurso a GPS), e ao Comando da Polícia de Segurança Pública.
Após ter dado nota pública das várias situações - e fí-lo, numa crítica construtiva, a coberto do novo instrumento da democracia que dá pelo nome de cidadania participativa -, sempre pensei que tais aberrações urbanísticas, que só nos atrapalham a vida e fazem gastar mais dinheiro em combustível, iriam ser revertidas, dando lugar a soluções mais simples e funcionais, com a vantagem de serem pouco onerosas para o municipio.
Critiquei, igualmente, por mais do que uma vez, o Programa Polis, por resultar num efeito contrário ao desejado: concebido para revitalizar a Praça da Sé e as zonas que lhe são contíguos, contribuiu para desertificar e subverter completamente a alma da cidade.
Em ambas as situações - e ainda que o facto esteja consumado e, aparentemente, se afigure irreversível -, é possível, havendo vontade, minimizar os estragos causados. No caso da zona histórica, e mesmo que não seja possível devolver às ruas o tamanho e a estética que as caracterizavam antes da intervenção do Pólis, que haja o bom senso de retirar dos seus passeios os ridículos pinos e as bolas de ferro aí plantados, cuja "finalidade" é dificultar o trânsito automóvel e provocar quedas aos transeuntes mais desprevenidos.
Numa perspectiva inversa à até aqui trazida, ou seja, no destaque pela positiva, e porque nos encontramos em plena época estival, queria aproveitar para dar os parabéns à Câmara Municipal de Bragança, pela magnífica e diversificada oferta cultural com que nos tem brindado. Como digno de registo é também o profissionalismo  e a forma a preceito como a edilidade bragançana se envolve nos projectos que organiza e promove, sejam de âmbito desportivo, cultural ou recreativo.
Das várias iniciativas com a chancela da autarquia, tocou-me particularmente a fantástica e feliz ideia (à qual se juntou a Associação Comercial de Bragança) de devolver à cidade as memórias dos anos 80, atraíndo para o coração da cidade centenas de pessoas que se divertiram, enchendo esplanadas, pela noite dentro do pretérito dia 6 de Agosto, com  a presença de alguns DJ´s que, nas diferentes tendências e rítmos musicais, animaram e deram vida às principais artérias da urbe - fenómeno inédito por estas paragens, mas que na vizinha Espanha está muito enzaízado.
Aparentemente simbólico, este pequeno passo para facilitar e promover a "cultura da esplanada", do convívio ao ar livre, nas praças e nas ruas, de promover o comércio local, e não obstante haver gente com uma extraordinária capacidade inventiva para criar momentos e ambientes julgados, pelas circunstâncias, "impensáveis", capazes de fazer a diferença, só terá o sucesso que permite a continuidade, se forem solucionados os problemas de natureza rodoviária aqui relevados.
Por mim, enquanto bragançano, dar-me-ei por satisfeito, se, ao contrário da última "tentativa", esta "missiva" chegar ao destinatário. A acontecer, o meu dever cívico cumpriu-se. Outros, em consciência, espero, hão-de fazer a sua parte.