Desmontaram os Matraquilhos….

Lá muito para trás, rapazola, há cerca de 48 anos, vivia ali para os lados de Campanhã, Bonfim. Dividia os tempos entre o Colégio João de Deus, a casa e o Capa Negra I, ponto de encontro para grandes jogatinas de matraquilhos. Lá na cave, escondidos de todos mas no quente das amizades, trocávamos humores, risos, iras, glórias e frustrações. Sim, a adrenalina subia às faces misturando suores e rubores, pagava-se perdendo. Aqueles pequenos bonecos, hirtos e metálicos, fixos, submissos à destreza intelectual e reflexiva do mandante, obedeciam sempre ao comando e, por isso, viciavam.
Após descarga das tensões diárias, subíamos ao café, tertuliavamos. As mesas, sempre as mesmas, coladas à montra, virados para a Igreja do Bonfim, ali defronte das soberbas e imperiais escadas em ascensão, acolhiam grupo grande, atiçador político, do reviralho, apontou-me rumo que jamais abandonei.
Ouvi pela primeira vez os nomes de Mário Soares, Humberto Delgado, Álvaro Cunhal, Bento de Jesus Caraças, Virgínia de Moura e muitos outros. A PIDE encorajou-me ao confronto, senti-me conspirador em família clássica, onde politica entrava no saco dos proibidos.
Ao entrar no sótão de Economia, na inesquecível Universidade dos Leões, piolhei-me no carismático Café, mas foi no Estrela Douro que degluti com sofreguidão dois marcantes livros, Portugal Amordaçado e Portugal e o Futuro. Abril não tardaria, misturei-me no mar de gente, a alegria contagiou-me, sentia-me vencedor ondulando na multidão em delírio, faço parte da História que será um dia escrita.
O filme rodou, na tela passaram Mário Soares, Álvaro Cunhal, Pires Veloso, Pinheiro de Azevedo, Sá Carneiro, Unicidade Sindical, Companheiro Vasco, Governos Provisórios, Constituição, grupos Parlamentares, partidos políticos, manifestações, eleições, abstenções e a jóia da coroa a Assembleia da Republica. A nova semântica, novidade portuguesa, infiltrou-se na comunidade, tornamo-nos cidadãos do mundo, a Liberdade abriu-nos a porta do futuro.
Ali, no hemiciclo, desfilaram parlamentares de elite, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Magalhães Mota, Jaime Gama, Sá Carneiro, Mota Pinto, Manuel Alegre, Souto Mayor Cardia, Mota Amaral, Almeida Santos, Freitas do Amaral, Adriano Moreira, Helena Roseta, Vasco Graça Moura, António Barreto, Magalhães Godinho, Lopes Cardoso, Maria de Lurdes Pintassilgo e muitos outros nunca esquecidos mas que o espaço disponível impede divulgação.
Quarenta anos de debates e aprovações, quedas e posse de governos eis-nos em 2017. Ao observar os debates na Assembleia, principalmente da oposição, regresso ao meu Capa Negra I, à cave da amizade e dos matrecos: pelos esganiços e gesticulares fico sempre com a sensação de que, lá no Bonfim, Desmontaram os Matraquilhos…