Esta pouca cinza fria…

O notável poeta modernista Manuel Bandeira terminou o poema epígrafe do seu livro A Cinza das Horas, escrevendo as palavras a titularem esta crónica. O poeta tem a avarenta sorte de apenas ser lido por muito poucos, mesmo no Brasil, consola-me a certeza de a sua poesia alegrar todos quantos tecem pensamentos relativos à finitude dos dias, a seguir à folia entrudeira por bem duradoura que seja, chega a hora de passarmos à condição de cinza fria.
O poeta também escreveu o melancólico livro Carnaval, marcha acerada cujo cromatismo no meu parecer assenta nos diversos fulgores duais do branco e do preto, sejam acetinados ou crespos conforme a nossa epiderme sensitiva e sentimental, a pressagiar a ida para a Pasárgada onde tudo é diferente. Era!
As riquezas materiais, os penduricalhos e colares decorativos de peitos a enunciarem feitos (às vezes deploráveis), as lápides não partidas da toponímia, os livros de memórias, os brasões mesmo esquartelados, os jarrões evocativos, as medalhas, os diplomas, tudo isso, pode aconchegar abraços e afagar egos desmesurados ou não, até ao dia da passagem à condição de cinza fria.
A quarta-feira de cinzas nestes tempos coloridos a tinta rápida e evanescente não suscita um minuto de reflexão sobre a temporalidade da folia para a esmagadora maioria das pessoas, as ressacadas têm dores nas meninges e a língua sarrenta, nas restantes a matéria-prima cerebral retrai-se a favor da farândola da sociedade do espectáculo tão bem observada pelo incisivo Gui Debord.
E, os poetas do talante de Bandeira saem dos jazigos da memória a fim de nos ajudarem a encontrar as melhores palavras capazes de expressarem ao modo das pontadas dos estiletes tudo quanto sentimos na observação da ingente real/realidade – seremos cinza fria – nada nos impedirá de virmos a ser.
Os «tontos» da negação do para além do seu nariz por isso mesmo lestos no «morder a mão» de quem lhe deu agasalho e pão esquecem o findar dos dias, na deles o Carnaval é todo o ano, não valorizam os valores da lealdade saltitando de fingimento em fingimento, até ao sentirem o garrote da Senhora da gadanha.
A Morte tem sido de cruel generosidade para comigo, os leitores farão o favor de perdoar escrever esta verdade dilacerante, verdade é verdade, outros até têm mais razões de queixa dirão (cada qual sabe de si recorda o anexim), a cada mesquinha dádiva respondo conforme posso ajudado pelos poetas, os filósofos, os escritores, os músicos e os pintores da minha afeição. Sem eles fazer voar as cinzas de todos os dias obrigava-me a maiores esforços. A poupança de energias na remoção das cinzas quotidianas concede-me alegria contida a lembrá-los lendo-os, ouvindo-os, perscrutando-os. E o leitor acredite: recebo sempre novos e alácres lenitivos recompensadores dos desaires e das angústias, como na adolescência recebia fundas impressões no decurso das cerimónias religiosas que ocorriam na Igreja da Misericórdia e terminavam no cemitério junto ao túmulo de um injustiçado.
Armando Fernandes
PS. Acerca do combate entre a Dona Quaresma e o Dom Carnal, sugiro a leitura do clássico El Libro do Bueno Amor, do Arcipreste de Hita.