A Imagem do Funcionário Público

No longínquo ano de 1985, com vinte e quatro anos de idade, entrei para a função pública, com início de funções na Zona Agrária de Bragança, passando orgulhosamente a fazer parte da numerosa e multifacetada família do Ministério da Agricultura e Pescas.
No meu primeiro dia de trabalho como servidor do Estado, o então chefe da Zona Agrária, Eng.º Cruz Oliveira - para mim uma das mais importantes referências morais e profissionais, que não exibia nem reclamava autoridade, porque todos lha reconheciam, respeitava e sabia dar-se ao respeito - , chamou-me ao gabinete para , num ar paternal, me dar alguns conselhos. Entre muitos que me foram preciosos, consigo recordar, ipsis verbis, aquele que, pelo significado e profundidade, me norteou nesta já longa travessia laboral: “Temos que ser simpáticos, tolerantes e respeitosos para com os agricultores, porque eles são a razão de nós termos emprego”.
Há uma consciência generalizada de que, a nível de atendimento ao público, os serviços do Estado são incomparavelmente melhores do que o eram há duas ou três décadas. Embora haja ainda alguns (raros) resquícios do passado, hoje não é concebível que um utente/contribuinte seja discriminado pela falta de título académico ou “relevância” social.
No pretérito mês de Junho, o meu filho, de 15 anos, foi renovar o Cartão de Cidadão. Uma semana depois, recebi uma carta, em nome do interessado, a informar que o documento já podia ser levantado. Como progenitor, e em virtude de ao meu filho lhe causar transtorno ir busca-lo, porque tinha que se deslocar a pé mais de 4 quilómetros, debaixo de um calor infernal, dirigi-me à Conservatória do Registo Civil de Bragança a reclamar o dito cartão.
Anunciando o propósito da minha presença, a pessoa incumbida dessa tarefa, cuja graça não me recordo, mas que, diz-se, ganhou entre os seus pares (vá-se lá saber porquê!) o cognome de “Sra. Decreto – Lei”, perguntou-me, imagine-se, com um ar arrogante e nariz empinado, como se estivesse a falar de cima da burra, se eu tinha autorização do meu filho (recorde-se, menor de idade) para proceder ao levantamento do dito.
A zelosa funcionária, depois de me dizer que tal procedimento estava na lei (o que é falso, uma vez que essa situação só se coloca, à luz do diploma que a consagra, se o requerente tiver  dezoito anos), apenas lhe disse que era má vontade da sua, e que a legalidade (ali invocada abusivamente) não é incompatível com o bom senso, desde que não haja dano moral ou prejuízo material para a entidade empregadora (no caso, o Estado), nem consequências disciplinares para quem, de boa – fé e apenas para fazer bem a quem precisa, facilita.
Em face, pois, da intransigência caprichosa da senhora – que, naquele momento, julgo ter-se sentido a pessoa mais poderosa do mundo - o Cartão de Cidadão foi levantado pelo titular.
A partir desse momento, inverteu-se a noção de “autoridade” lá em casa: hoje é o meu filho Pedro quem me dá a mesada, é ele quem decide quantas horas me são permitidas estar na internet e quando posso jogar snooker com os amigos!