Natal

Artistas de todas condições e credos têm na Natividade tema fecundo a gerar obras de inúmeros recortes e sentidos, seja no âmbito das artes plásticas, seja no campo das literaturas, seja ainda (e de que maneira!) no tocante à nona arte, a gastronomia. Seria rematada parvoíce tentar elencar as de maior relevo, primeiro porque em matéria de gostos nada está escrito (por exemplo não se gostava do tom amarelo), segundo porque a quantidade de obras-primas é gigantesca de molde a tildar aquelas que estão longe de o ser toldando o discernimento escorado no estudo e afinação dos sentidos.
Manda a simplicidade do Deus-Menino nascido numa palheira, aquecido naquela noite gélida pelo bafo do burrinho e da vaca, rebuscar a memória e cada qual eleger ou trazer ao de cima as cousas e as causas marcantes de cada um, em cada época, relacionadas com o acontecido em Belém. Receber a bênção dos avós no lar quente de Lagarelhos após a ceia, de seguida aguardar o chamamento do sino a anunciar a missa-do-galo no começo da adolescência e entoar louvores a Deus no decurso da cerimónia marcou-me a ferro quente deixando marcas dada a abstrusa vivência na altura, marcas de outro teor, ameaçadoras, dissiparam-se na Consoada de 1969, por cima da minha cabeça balançava a espada por ter sido incauto, estúpido, ao ser apanhado na posse de propaganda subversiva.
O roer do tempo, esse grande escultor aviva a defunta Yourcenar, foi atirando para o esquecimento Natais tristes, infelizes, chorados, sendo substituídos por noites solenes, joviais, repletas de convivialidade aqui e ali, uma delas bem perto da casa no Maine, da autora das Memórias de Adriano, e de uma igrejinha protestante onde os cânticos nos embeveceram.
Em todos lados por onde andei a tradição do Natal é forte e firme no que tange a comeres e beberes, mesmo os relapsos à vertente religiosa do cristianismo não batem com a porta  a receitas e especialidades de comida de inspiração natalícia oriunda de vários continentes e países residindo em tais sapicidades o sortilégio da convivialidade bem humorada relativamente aos interditos. Nessa esfera encontrei judeus corrosivos, no entanto, cumpridores das regras do Talmude. Brincadeiras sim, regras são regras a respeitar.
Passar a quadra no seiso de Comunidades emigrantes é a supresa de encontramos mesas onde perduram memórias de fórmulas culinárias cuja matriz é portuguesa acrescidas ou transformadas mercê da usura do tempo, dos produtos, das quebras de memória e sobreposição de reakidades globais. Nessas paragens subsistem recordações veiculadas de geração em geração a causarem inveja a todos que por preguiça não as mantêm no terrunho Natal. Cada leitor deste jornal meta a mão na arca ou no bornal (termos em desuso) e faça o inventário de tudo quanto esqueceu ou colocou  debaixo da mesa na qual as rabanadas, as filhoses, o polvo cozido e frito, as distintas rabas saíram de cena expulsasna loja (que não das Antiguidades)  atonal, desculpem os musicólogos pela enormidade, de milhares de produtos de Seca e Meca vendidos ao som de músicas escutadas nos corredores e elevadores das Mecas do consumismo.
Não podemos barrar a realidade, podemos isso sim descobrir as tonalidades maiores e menores das cromáticas escalas numa hierarquização dos nossos valores colhidos na lição do nascimento do Menino.
Bom Natal.