Notas de (des)Agosto

Estamos em Agosto. A Venezuela está a ferro e fogo e a desgraça do comunismo está a chegar.
Por cá, 10% das pessoas do país descem até ao Algarve e por lá se vão esquecendo dos seus males e dos dos outros. Quarenta por cento vêem-se às voltas com o futuro dos filhos, metade a procurar o dinheiro para o ano lectivo e outra metade a cuidar de arranjar a melhor escola e os melhores professores. Pelo meio, nesta competição pelo melhor futuro, declarações de residência falsas impedem os alunos verdadeiramente residentes de frequentar aquela que seria a sua escola. Quiseram escolas em competição, aparem-lhe agora as lâminas.
Mas os outros cinquenta por cento de pessoas também existem. Vinte por cento trabalham de sol a sol na busca do pão. Os outros 30% divertem-se em festas e festivais. Agosto é assim. O mês das festas, dos incêndios como arma política, económica e como fogo de artifício da política e das televisões e ainda o mês dos festivais. O país quase pára ou, melhor, deixa de trabalhar para cirandar. As portagens das autoestradas registam mais 100% de passagens do que na média do resto do ano.
Bragança não foge à regra. Regressados os e-migrantes como se, em Agosto, mudássemos o «e» para «i», os autarcas tratam de encher os dias de actividades lúdicas, de diversão, de fruição cultural, e de revivescência da cultura, das culturas, das artes e dos costumes tradicionais da região e com isso, claro, de captação de votos. Como as artes do diabo são mais engenhosas e criativas do que as rectilíneas regras de Deus criador, temos de ver em tudo isto os sinais do progresso e da transgressão necessária à evolução.
Por falar em Deus, ontem, Domingo, participei numa bela missa, na Igreja dos Santos Mártires e, ao longo da leitura das Epístolas e do Evangelho, e da homilia do sacerdote, apercebi-me do trabalho que os responsáveis pela Igreja têm pela frente para adaptarem os textos aos valores dos novos tempos. Então não é que os pescadores tinham o direito de pescar tudo e deitar fora, depois de morto, o peixe miúdo por ele não servir para comer ou por não ser suficientemente bom? Todos percebemos a metáfora pretendida de separar o bom do mau e o bem do mal mas, hoje, é inadmissível a pesca de peixe miúdo, seja ele qual for, precisamente para preservar os viveiros. Atenção, por isso, aos símbolos que se usam.
Por falar em símbolos, o mês de Agosto não está a correr muito bem a António Costa. Os incêndios mostraram as fragilidades do país e do Governo. A economia demonstrou que, apesar da actual vitalidade, tem estruturas muito vulneráveis que a farão agitar com os primeiros ventos. E o Presidente da República teve o cuidado de afirmar e reafirmar que não tem nada a ver com a «geringonça». Começou uma nova vida, para António e para Marcelo. Governar pelos dois, já foi.