O Entrudo, os latos, os caretos e os casamentos…

Escrever sobre o Entrudo, os latos, os caretos e os casamentos, leva-me a recordar um passado rural com que me identifico, que vivi com VIDA, entusiasmo e alegria exercida. Vivências da meninice, da adolescência e da juventude, que não esqueço, porque no seu encanto me fizeram sonhar, dormir, viver e acordar. Tempos idos, em que as circunstâncias da vida, isolados do mundo, mas mais próximos e interativos, potenciavam a identidade e deixavam sementes de culturalidade.
Era, com efeito, num contexto de transversal e inconsciente constrangimento, inserido no espaço e no tempo, sustentadas na mais genuína e pura tradição, que as atividades inerentes ao Carnaval e às demais, locais, entusiasticamente se desenvolviam e alegremente aconteciam, sobressaindo o talento no acontecimento. Sem nada mais interessante que nos distraísse, mergulhávamos no exercício das nossas tradições cultivando o imaginário sustentado em anteriores gerações, apurando a fantasia, que nos ajudava a entusiasmar e alegrar, na preparação do Carnaval e no próprio dia.
Neste meu pensamento, retroativo o tempo, em que nas aldeias não havia máscaras à venda e cada um construía a sua, com apurada criatividade, em que nos palheiros se faziam os Entrudos, com roupas velhas, enchidos com palha, não lhe faltando referências e atributos para se apresentar apelativo e farfalhudo….em tudo!... Em que jamais se apresentaria, na praça pública, um Entrudo importado, sem identidade dotado. É que o Entrudo, refletia a identidade e a imaginação de quem o idealizava, o construía e o enquadrava na cultura local. Até porque não seria bom virem de “fora” os Entrudos para se colocarem às portas das prezadas solteironas da terra. Bem basta os “Entrudos hipocritamente aculturados” que teimam em se pavonear todo ano, mascarados, por terras com as quais não se identificam, nem nunca foram verdadeiramente identificados.
Mas se o Entrudo era o centro das atenções, não é menos verdade, que o tocar os latos, fazia parte do ritual do Carnaval. Ainda me lembro, de andar de noite, nas rondas, tocando os latos, pelas ruas da minha aldeia e das circunvizinhas, com lama e pedregulhos, mas que, mesmo às escuras, não constituíam obstáculos. Tratava-se de uma verdadeira festa quando surgíamos, inesperadamente, no silêncio da noite, tocando ruidosamente os latos, nas aldeias vizinhas, com requintada afinação e vaidade e inerente reciprocidade, no convívio da mocidade. No final de cada ronda, não faltava a grande fogueira no largo da aldeia, à volta da qual se comia e bebia em conformidade e de alma cheia.
Para encerrar o ciclo carnavalesco, não poderia faltar o ritual dos casamentos, em que as moças solteiras e mais prendadas, eram dotadas de extravagantes ajuntamentos. À fogueira, referência de convergência e reunião, se combinavam os casórios, arregimentados com apurado sentido satírico, de humor e diversão. Depois, recorrendo aos “imbudes”, para que os protagonistas da voz se fizessem ouvir de um lado para o outro da terra, lá eram “cantados” os casamentos, com as raparigas à escuta, aguardando ansiosamente por esses momentos. Claro está que, no dia seguinte, não faltavam os lúdicos argumentos.