O pavão perdeu a pena

Tão elegante, tão cromático e tão lambido quanto um pavão indiano, assim se mostrou e falou Pedro Santana Lopes na disputa com Rui Rio pela liderança do PSD. Depois de andar por aí, adquiriu novas penas, brilhantes, na Provedoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o cargo concedia-lhe os instrumentos necessários a poder abrir a cauda em leque, soltar gritos estrídulos na televisão e jornais, flagelar suavemente os intervenientes políticos no poder em parceria com António Vitorino, conseguindo receber flocos de incenso e mirra, aparecendo no palco mediático numa estudada pose de serenidade, de cariz quase austero, longe dos tempos do lenço na cabeça imitando os piratas, das perrices monumentais originadas pelos comentários agrestes à sua governação saídos da boca do comentador Marcelo Rebelo de Sousa.
O que lá vai, lá vai, dizia de olhos no chão, esqueçam a incubadora, esqueçam o menino guerreiro, esqueçam a tentativa da lei da rolha, esqueçam os desastres dele, não os de Sofia (livro de literatura infantil), esqueçam, esqueçam, eu sou o paradigma do Homem novo sem largas as penas em berrante aguarela.
Cumprindo rigorosamente a agenda traçada rumo à vitória (título de uma obra de Álvaro Cunhal), Santana Lopes concluiu ter chegado a sua hora no momento da forçada retirada de Passos Coelho, a quem se acolheu da mesma forma que os animais fizeram relativamente a Noé a fim de escaparem ao dilúvio. O pavão deu imenso trabalho a Noé.
Impulsionado pelos discípulos de Passos, a maioria silenciosamente, Relvas enquanto o considerou possível ganhador, o Pavão Lopes anunciou a sua candidatura a Presidente do PSD a som de pífia marcha triunfante executada pela charanga do aparelho partidário. O opositor, Rui Rio não passava de um labrego envernizado, homem paroquial ao estilo dos burgueses dos romances de Júlio Dinis, a quem faltava Mundo e conhecimentos capazes de distinguirem concertos para violino de Chopin (lembram-se?) de uma tocata em fuga de Bach. Em suma: Rio era símbolo da ruralidade, Santana a modernidade citadina desde a entonação lenta e afectada, até à mão mole no exercício de cumprimentar, passando por entre as grossas gotas da trovoada e da chuva miudinha debaixo do guarda-chuva de santanetes embevecidas.
Todo este lastro foi empregue na sua campanha eleitoral, colocado gota a gota, porção a porção no decurso das andanças de caça ao voto, fazendo o mal e a caramunha nos debates, pedindo desculpa ao estilo do choramingas aluno da Escola Primária, negando hoje, admitindo no dia imediato o encontro com Pacheco Pereira, considerando traidores todos quantos ousaram interrogar e conviver conforme lhe deu e dá na real gana.
Os militantes do PSD ignorantes das trapalhadas de Santana Lopes murmuravam para os seus botões se ele seria o autor e fautor do acima afirmado, a maioria, os de idade mais avançada sabiam dessas e de outras ocorrências, por saberem votaram em conformidade. Votaram não ao pavão da Lapa. E agora? Agora importa restabelecer-se a ordem no aparelho, no grupo parlamentar e afinar-se a alternativa. Caso assim não suceda o PSD corre riscos de continuado afundamento eleitoral nos próximos desafios nas urnas dos votos.