A opinião de ...

Pés da Paz

Ainda que o fogo que destruiu grande parte da catedral de Notre-Dame seduza o olhar, não me sai da cabeça mais um gesto do papa Francisco. Desde o início que Bergoglio nos habituou à poética dos gestos. Na verdade, os sinais falam mais que uma catadupa de palavras. Projetam-nos. E, como têm a capacidade de se aninhar na nossa memória, fazem-nos companhia, falam-nos e ensinam-nos.

Quem se pode esquecer dos inúmeros sinais valorizados por Francisco na sua primeira aparição? Desde as vestes, à expressividade que acompanhou a saudação de ‘boas tardes’, à oração conjunta pelo papa emérito e por ele mesmo. Por vezes, porém, na sua impulsividade, parece que desvaloriza gestos convencionais. Talvez para os recarregar de sentido. No espaço de poucos dias, o mesmo papa que manifesta incómodo quando lhe beijam as mãos, ajoelha-se para beijar os pés de alguns responsáveis políticos. Se o embaraço diante do beija-mão é difícil de compreender, e ainda se torna mais ilegível diante de algumas justificações, ver o papa ajoelhado para beijar os pés de protagonistas políticos da história do Sudão do Sul é um sinal muito claro. Remove-nos as entranhas, humedece-nos o olhar. Digamos que todo este quadro é uma obra de arte esperada por tantos desde as guerras de religião da época moderna. Porquê? Porque o ambiente vital deste gesto é ecuménico. Este acontecimento histórico só se realizou graças à ideia do arcebispo anglicano de Canterbury, Justin Welby. Lembrou-se ele de propor ao papa que convocasse um retiro espiritual, em Roma, pelo Sudão do Sul. Para além disso, o encontro terminou com o papa a manifestar o desejo de visitar aquele país africano na companhia do arcebispo Welby e do responsável pela Igreja Presbiteriana da Escócia, John Chalmers. Tudo isto é inaudito. Tudo isto serve para construirmos a unidade, ao longo e ao largo, edificando a paz. E haverá outra forma de a construir?

O Sul do Sudão, depois de 400 mil mortos nestes últimos seis anos, tem direito a ver descer sobre ele os pés dos mensageiros da paz. Aliás, já tinha esse direito antes! Sem dúvida que a beleza desses pés merece ser beijada. São pés de autenticidade e de bondade evangélicas. Necessariamente, são pés de perdão. Não acreditar que eles são possíveis e existem é viver alienado, é resignar-se à guerra. Há 25 anos atrás decorria noutro país africano, no Ruanda, um massacre que, em três meses, ceifou 1 milhão de vidas. Nunca esquecerei o testemunho dum ruandês que, retalhado interiormente como ninguém, se deitou na reconstrução do seu país. A vingança não lho teria permitido. Por isso, recordar nesta Semana Santa os seus pés de paz é saborear um dos muitos frutos da Páscoa de Jesus.

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