Uma Tremenda Injustiça!

 
“Não somos o que dizemos; somos o crédito que nos dão”,
José Saramago, in O Ano da Morte de Ricardo Reis.
 
Depois de um longo período de hibernação, acabado de chegar da Ilha, não a dos Amores, descrita por Camões no Canto IX dos Lusíadas, mas a do sketch da série os “Malucos do Riso”, exibida pela SIC entre 1995 e 2008, fiquei incrédulo com a notícia difundida nos meios de comunicação social, segundo a qual nas eleições autárquicas de 2017 havia candidatos que tinham sido condenados em tribunal, por corrupção, na qualidade de representantes do povo - facto que, na altura, determinou a minha ausência prolongada da civilização.
 Porque não é hábito meu fazer juízos precipitados sobre as pessoas, completamente descontextualizado, dadas as circunstâncias, perguntei a um amigo, bem informado e insuspeito, como era possível estes senhores, num país onde tanto se preza a idoneidade cívica e moral, conseguirem o número mínimo de assinaturas, determinadas por lei (250), para entregarem no tribunal da comarca com jurisdição dos respectivos municípios.
O meu interlocutor, não sei se para impedir o meu regresso à Ilha, disse-me que todos esses arguidos tinham sido vítimas de “assassinatos políticos e de carácter”, do mais vil e cobarde ataque pessoal, autênticas cabalas urdidas; sendo que a única prova produzida em juízo foi, segundo ele, para os crimes de, entre outros, ir à missa duas vezes por dia, a prática continuada de ajuda às velhinhas a atravessar a passadeira e esse hediondo acto de dar milho às pombas, todos previstos no Código Penal.
Na posse de elementos probatórios mais fidedignos, pude verificar, com um certo distanciamento, que todos esses casos não passaram de infames acometimentos ad dominorum: essa gente não acumulou riqueza, enquanto autarcas, vivem nos mesmos modestos apartamentos em que se iniciaram na carreira política, não transferiram dinheiros para paraísos fiscais, resistiram, quais monges tibetanos, ao mundo nubloso das promiscuidades, viveram sempre do parco vencimento e da caridade alheia, são abnegados, materialmente desprendidos e jamais correriam sem ser por amor à camisola. Enfim, verdadeiros exemplos a serem seguidos pelos debutantes na política.
Reconheço, pois, perante as evidências, ter sido tomado por pensamentos maledicentes, que me fizeram acreditar que tal gente seria capaz de cometer os crimes que a justiça portuguesa lhes imputara. Aliás, não faria sentido serem culpados, não só porque as provas da inocência são irrefutáveis, mas pela incompatibilidade semântica da palavra candidato, cognata de cândido, que, resgatada aos latinos, na correspondência substantiva, tem a significação de candura e pureza.
Neste “processo de intenções”, aquilo que o bom senso me recomendaria, a fim de expiar o pecado da mente, era ter a possibilidade de, caso a lei o previsse, e tendo, naturalmente, o dom da ubiquidade, confiar o meu voto a cada um deles. Diria mais: estava capaz de me oferecer para colar cartazes e fazer campanha eleitoral, em nome das nobres causas que os ditos abraçam. Confesso que, se essa condição se efectivasse, me sentiria muito mais confortável, pelo alívio do peso na consciência.
Mais leve de espírito e aberto de coração, anuncio publicamente o meu não regresso à Ilha. Por cá ficarei, atento e vigilante.