ACABEM COM A AUSTERIDADE

O programa de ajustamento executado pelo governo e superintendido pelo troika termina em maio de 2014. Por coincidência, mais ou menos na mesma altura em que se realizam as eleições para o Parlamento Europeu (e que, na minha opinião, deviam coincidir com eleições legislativas).
O governo e a troika não se cansam de afirmar que o programa está a ser um êxito, que Portugal vai poder voltar aos mercados para se financiar e que, a partir daí, vamos recuperar tudo o que perdemos. Mas a euforia deles não corresponde à realidade nem ao sentimento da generalidade dos portugueses. O que as pessoas sentem, sobretudo as famílias da classe média, é que a sua situação piorou muito nos últimos dois anos e não acreditam que vá melhorar em 2014 nem sequer em 2016.
Quais são, então, os resultados do tal “ajustamento”? De que serviu para a generalidade dos portugueses? Para mim, a resposta mais evidente às duas perguntas é esta: empobrecimento do País e das famílias, em geral, e enriquecimento de uns quantos. Sim, porque a História revela que as crises económicas não afetam todos por igual e que há quem beneficie da desgraça alheia. É o que está a acontecer em Portugal: não só aumentou o número de milionários, mas também ficaram ainda mais ricos os que já eram ricos. Enriqueceram, não porque tenham sido empreendedores e feito investimentos bem-sucedidos, apenas porque se dedicaram à especulação bolsista. E, como é sabido, muitos dos milionários portugueses nem sequer pagam o grosso dos impostos em Portugal. O seu patriotismo leva-os a ter a sede fiscal (uma caixa postal?) num qualquer offshore ou mesmo em países europeus, como a Holanda, onde os impostos sobre as empresas são mais baixos.
“Parem com a austeridade” é o grito desesperado de quem está no desemprego; de quem tem de emigrar para sobreviver; de quem trabalha e recebe uma miséria; de quem trabalhou toda a vida e percebe que não há direitos adquiridos; de quem, na velhice, tem de sustentar filhos e netos; de quem está doente e não tem dinheiro para as taxas moderadoras e para os medicamentos; de quem teve de desistir de estudar porque deixou de ter recursos para continuar; de quem ficou sem a casa porque ficou desempregada/o; de quem tira da boca para alimentar os filhos; de quem vivia bem e tem vergonha de ir à sopa dos pobres…A lista não tem fim.
Mas “parem com a austeridade” é o conselho de Prémios Nobel da Economia como Paul Krugman, Joseph Stiglitz, Nouriel Roubini e de outros conceituados Professores de Economia como Mark Blyth, Paul de Grauwe ou Thomas Piketty.
Mark Blyth, autor do libro Austeridade - a história de uma ideia perigosa, alerta para o facto de a austeridade trazer “políticas de classe, distúrbios, instabilidade política, mais dívida do que menos, homicídios e guerra". E acrescenta que “é uma ideia perigosa porque o modo como a austeridade está a ser apresentada, tanto pelos políticos como pela comunicação social - como o retorno de uma coisa chamada 'crise da dívida soberana' supostamente criada pelos Estados que aparentemente 'gastaram de mais' - é uma representação fundamentalmente errada dos factos". E o economista belga, Paul de Grauwe diz que “o governo português cometeu o grande erro de tentar ser o melhor da turma no concurso de beleza da austeridade”. E acrescenta que “podia ser mesmo o pior [aluno] e isso seria melhor para economia”.
E Nouriel Roubini, célebre por ter previsto a crise financeira de 2008,
acha que em Portugal "há uma fadiga da austeridade, que se começa a ver nas ruas, que pode tornar-se um problema". O que ele diz não é muito diferente do que disse Mário Soares e o Papa Francisco.
Feliz Natal e Bom Ano Novo.