Alcina Correia

 
Senão me falha a memória, conheci a Dra. Alcina Correia no primeiro ano da última década do século passado, quando ela dirigia com sabedoria e zelava com raro carinho o museu que leva o nome da mais singular e ilustre figura da cultura trasmontana.
Eu era então director do hospital de crianças do Porto, uma instituição secular que a cidade invicta já perdeu sem cuidar da preservação do seu património, e encabeçava uma das partes em que a comunidade da minha especialidade, a cirurgia pediátrica, se dividia num desagradável cisma provocado por diferentes conceitos formativos entre as regiões norte e sul.
Incumbido de organizar o congresso nacional, decidi contra ventos e marés, que o mesmo se realizasse em Bragança, não obstante os crónicos comentários sobre a distância geográfica e dificuldades de acesso rodoviários. Certo é, que o evento correu bem e ainda hoje há quem recorde com saudade os bons momentos e qualidade do programa, sem deixar de fora a beleza paisagística, património histórico com o museu Abade de Baçal à cabeça e a inesquecível cortesia do acolhimento trasmontano.
Vem isto a propósito dum livro que por generosidade da sua autora me chega agora às mãos. Trata-se duma volumosa e graficamente bem apresentada obra que constitui a tese de doutoramento da Dra. Alcina Correia, membro da direção da Fundação “ Os nossos livros” e ex- directora do museu Abade de Baçal. Com nota prévia do Dr. Hernâni Dias, ora presidente da Camara Municipal de Bragança a atestar a louvável política cultural da autarquia que tem permitido a publicação de numerosas peças temáticas, esta obra leva também um prefácio assinado pelo professor Luís Reis Torgal.
Basicamente, trata-se duma extensa e pormenorizada biografia do Dr.Águedo Oliveira, um ilustre trasmontano nascido em Moncorvo e cujo percurso profissional o colocou com elevado relevo no panorama político do Estado Novo, muito próximo do homem que durante meio século governou Portugal. Daí, o sugestivo título “ Águedo Oliveira e Oliveira Salazar”, que aborda o “espaço político das elites trasmontanas”, onde à época, como muitos por certo ainda se lembrarão, contava com cinco distintas figuras oriundas de” trás do Marão” e que muito contribuíram para a organização e consolidação do regime caído na madrugada do dia 25 de Abril de 1974.
Pelo valor indiscutível desta obra, pelo que ela representa de muitas horas e dias de estudo e pesquiza e ainda pela sua utilidade para quantos se interessam por este período tão importante da nossa história recente, bem merece a sua autora, não apenas um aceno de simpatia, mas sobretudo o testemunho do nosso apreço e admiração que estou certo, não passará à margem das manifestações de justiça dos Bragançanos e de quem afinal os representa.