Contraposições & contradições...

Delas decorrentes, sustentam-se os progressos civilizacionais nas diferenças que marcam as diversas culturas, raças, ideologias e crenças, as desiguais formas de ser, pensar e estar de grupos humanos e pessoas individuais. Diferenças, diversidades e desigualdades a respeitar e valorizar, por isso mesmo. O acatamento pacífico das contraposições enfrenta e anula o monoideísmo cinzento e resistente à inovação.
Respiram contradição aqueles que hoje opinam em determinado sentido, amanhã apologizando o seu contrário. São, pensam e estão consoante os sopros dos ventos, os interesses em jogo, as vantagens a retirar. Tropeçamos com eles em todas as bandas comunitárias e sociais, muito particularmente no seio da política. Enquanto oposição, abraçam ideários que atiram para as urtigas logo que alcançados os cadeirões do poder, verdadeiro sendo o inverso, como se agulha misteriosa ditasse o avesso do sentido da locomotiva e carruagens por ela arrastadas. Exactamente para as mesmas pessoas e a respeito de uns, é válido o princípio constitucional de que todo o indivíduo é presumivelmente inocente enquanto não transitada em julgado condenação; já outros são liminarmente culpados na praça pública, ainda que na ausência de quaisquer indícios de cometimento de crime. Ou seja, clama-se e jura-se ferreamente a inocência de uns, ao mesmo tempo que se aponta raivosamente o dedo intimidatório e certeiro da culpabilidade certa de outros. Abomina-se a quebra do segredo de justiça quando em causa determinados sujeitos, ainda que dela beneficiem, e pretende-se, a respeito de outros e a todo o custo, a entrada no cerne do mesmo, perfurando-o sem decoro e salivando nesse intento. Ora se condenam supostas pressões sobre o exercício da justiça, ora se pressiona, efectiva e despudoradamente, a mesma, atingindo-se a ousadia do descrédito, da afronta, da ameaça sobre agentes seus, seja da parte de indivíduos (aparentemente) responsáveis, seja da proveniência de outros, que o tempo foi marcando de decrepitude. Agentes que, nuns casos, são entronizados na heroicidade, para, noutros, serem atirados para as catacumbas da vilania. Diz-se hoje e a respeito de uns sacrossanta a separação de poderes, para amanhã e a respeito de outros se pretender intoxicar essa separação, antes fazendo a apologia da promiscuidade entre os mesmos. Em casos determinados, é suposto que não se imiscuam figuras políticas. Já noutros se desafiam as mesmas a intervenções que seriam desajustadas. As escutas telefónicas, ora se postam inócuas para determinadas sensibilidades, ora equivalem a atentado monstruoso aos direitos individuais, Tudo depende dos protagonistas, das condições e das circunstâncias. Uns, conduziram-nos ao abismo, iminente. Outros, que dele nos afastaram, corajosamente, remando contra tantos, são acusados, verbal e gratuitamente, da austeridade que foram obrigados a impôr, mercê da irresponsabilidade dos primeiros. E muitos dos críticos nem sequer terão sentido as agruras da mesma austeridade, bem instalados na vida, alimentados à mesa do orçamento ou de outras quejandas mesas. Sejamos honestos, ao menos uma vez. Pelo menos, intelectualmente honestos.
Suprema contradição: crimes monstruosos de peixe graúdo no mar económico-financeiro proliferam; e, todavia, parece não se saber como e onde se acoitam os criminosos...